O último inverno dele

 

A neblina cobre tudo, é tão espessa que acho que posso senti-la, enquanto isso, os seus olhos se dissolvem no tempo, e quase não consigo me lembrar deles.
Parece que foi ontem, como sempre, o tempo passa rápido demais…

O verde musgo cobre tudo, não é possível diferenciar as árvores que nasceram, talvez, onde seus pés já pisaram.

Felizes, por estarem onde queriam, em meio aquela natureza de tons mortos, e perdida entre pedrinhas brancas e quartzo negro.
E ali se desfizeram ou desfazem, onde nasceram e se moldaram, perdidos e agonizados, cheios de medos e ódios ocultos.

Seu ser tão seu, que não se espalhava, como grãos de areia, agora se foi com o vento.
E nunca mais abrirá seus pequenos olhos castanhos, com formato de nozes, nunca mais vestirá sua calça de moletom azul.
E nem soube a cor da sua última gravata…

Sozinho, agora está o seu corpo, coberto de flores brancas e azuis, naquele lugar escuro.
E nem sente a neblina espessa, que cobre a natureza bela que te cerca, nem pode ouvir os pássaros que cantam naquele lugar bucólico.

Não pode mais beber café, e café sempre resolveu os seus problemas.

Já era tarde, você disse que estava bem, até que os seus olhos se fecharam calmamente, como nunca fizeram antes, e não mais conseguiu abri-los. Expirou e não inspirou mais.

Talvez tenha dormido um sono tão bom, que não quis mais acordar…
Talvez as suas mãos estivessem frias, porque ainda é inverno, talvez sua gravata tenha sido aquela, porque de repente, você aprendeu a gostar de vermelho, mas não… a sua cor preferida sempre foi azul.

Ainda posso  lembrar-me da  sua última entonação, tão singela como nunca esteve antes, contando feliz o quanto gostava de salada:“Sabe, Dea, eu gosto tanto de salada!”, seu rosto estava tão calmo papai, não pensei que seria a última vez. Agora não adianta chorar, nem velar um corpo em que sei, que você não está mais nele. E isso dói, sabia?

Dói, e chega a ser desesperador, porque eu te falei tanta coisa, e você não ouviu, permaneceu olhando o espaço, em silêncio. E por mais que eu apertasse a suas mãos, elas não se aqueciam. E por mais que eu escreva aqui, nunca o senhor poderá ler, mas tenho certeza, que você amaria ler algo que escrevi para você. E eu nunca escrevi.

4 comentários em “O último inverno dele

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