Ópio

 

Seu olhar calmo e suave, parecem dois pontos de luz, que se mesclam com os raios solares e se amarelam, porém, não o amarelo vivaz do sol, mas o amarelo das folhas de outono, que caem ao chão por não terem mais vida.

Diz estar perdida, mas afinal, em algum momento esteve presente?

Eu sei que essa calma toda é o seu disfarce, sei que se esconde atrás dessa personagem, tornou-se intocável, ausente, distante, já não sente como antes, não mais ri, tão pouco chora, ou se chora ou ri, não percebe, tornou-se alheia até aos seus próprios sentimentos, e para os outros os esconde.

E jurou ser sensível, jurou compreender, mas agora sozinha vive, e nem liga, nem sabe talvez, que foi para longe… Seu rumo claramente é o naufrágio, mas ela não é o barco, ela é o vento que sopra a vela e que mesma a distancia, vento forte que quase rasga o tecido, que destrói, mas acaricia o rosto dos gigantes.

Pensa que agora está bem, náufraga e nem percebe, é ela que conduz o seu barco a cachoeira que irá desagua-lo na mais triste correnteza. Mas quem se importa? “É sexta feira, amor” – diria a música, se a música coubesse a ela, se ela soubesse cantar ou fizesse questão nas feiras. Pouco se importa com a sua vida, tão pouco ligará de dizer ao seu amor os dias da semana.

Decrépita… induz a acreditar que está tudo bem, meu bem, eu sei que não está, ainda ontem ela estava deitada no sofá , tormentosa, escondia aquela dor latente, que palpitava os olhos e a impedia de falar.

Escondeu-se por trás de várias histórias, vários fins planejados, desenhou e pintou seus próprios quadros, e disse não serem dela, mudou de nome e de endereço, mas no fundo, a suspeita pairava, que tudo aquilo condizia com aquele olhar apagado, que pouco a pouco se esgotava. E em tempo nublado o seu olhar permaneceu amarelado, e até mesmo na noite, em céu estrelado ou não estrelado.

Decaiu certa vez, em uma de suas crises de insanidade, quando ouviu pela primeira vez “Starry, Starry Night”, olhou a lua e a lua acalmou o seu ser, foi como canção de ninar para bebê, adormeceu ali, a deriva, a uma passo de sucumbir. Descobriu então, o mais eficaz dos medicamentos psiquiátricos, olhar a lua a acalmava, e ela dormia, mas de tanto olhar para um objeto se enjoa, de tanto olhar para uma pessoa se enfada. Seu antidepressivo venceu a validade, a lua tornou-se comum, sem mais.

Pouco, a pouco te vejo sumir, querida, sem muito disfarce, dessa vez todos percebem, e até te chamam “louca”, e você pouco se importa, pouco reage. Está desbotando e desbotando, a cada dia mais e mais, irá sumir um dia, se continuares assim.

Submete-se a cada absurdo! Porém fazer o quê?

Tenho a certeza que enquanto pronunciam palavras, cantam e chamam pelo o teu nome, você está bem viva em seu mundo, embora pareça morta, olhando o teto esfumaçado do mundo exterior.

10 comentários em “Ópio

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