As estações da tristeza

O quão medíocre pode ser uma vida? A partir de qual ponto as coisas podem começar a mudar? Bianca morou desde os seis anos de idade na mais alta casa da favela da maré. Em frente à janela do seu quarto, a visão das rodovias escondia um famoso outdoor atualizado na passagem das estações. Certa feita de inverno, um dia depois de confessar a família que foi abusada pelo vizinho, ela vira uma propaganda no mesmo outdoor dizendo que o tempo transformava todas as coisas… balela! O tempo não transforma nada. “Tempo“, é só um caderno repleto de folhas vazias. Os dias estão divididos nas páginas e as atitudes, em cada frase. Tomando decisões a vida passa a ter conteúdo, cruzar os braços e não fazer nada é o mesmo que deixar as folhas em branco. Graças a Deus, ela percebera tal verdade aos 16, deste ponto em diante, parou de assistir o destino correr pelos dedos.

Tempos depois, outra propaganda de primavera continha uma filosofia barata e manjada que lhe fez acreditar na esperança. É claro que o comercial estampado de uma seguradora qualquer não agiu sozinho. A janela na qual Bianca costumava refletir também abraçava os ecos de uma igreja protestante que, durante dois meses, bateu na tecla da esperança em defesa de uma campanha espiritual particular. Ao creditar sua fé no recomeço e apostar num bom futuro, ela decidiu, num prazo de poucas semanas, largar a cocaína e voltar aos estudos escolares que tinha abandonado.

Seria um crime gostar tanto de sorvete? O preferido dela era o de napolitano. Demétrio, seu namorado, costumava trazer potes e mais potes nas noites de verão. Nessa fase da vida, Bianca passou mais tempo na cama do que na janela. Ela não ficara com Demétrio por muito tempo, pois não havia sentimento nem doce capaz de segurar uma mulher inteligente com alguém envolvido no tráfico de drogas.

No outono, era possível afirmar que não existia outra janela em toda cidade com tantos rastros de lágrimas e cigarros – Bianca descobrira que sua irmã mais nova também fora tocada pelo mesmo vizinho. Ela não desejava a mesma vida dolorosa para a caçula, tal como a vergonhosa opinião pública que lhe afastou da escola, a depressão que lhe empurrou nas drogas, e a necessidade de proteção que lhe entregou aos cuidados de um dos mais fortes braços da boca de fumo. Dessa vez, o outdoor estampava a mensagem mais crua e reflexiva de toda sua vida. “A vingança é um prato que deve ser servido frio”; a frase estava no topo da imagem, dentro de uma nuvem acima de um rosto hollywoodiano abatido e surrado. “Breve nos cinemas!“, exclamava o rodapé, trazendo luz a algum tipo de filme de ação.

As folhas caíam no quintal, uma para cada risada dos policiais que negligenciaram a denúncia sobre o caso de sua irmã. Sua alma causava inveja aos galhos secos da estação, na medida que sua família não fazia questão de mudar uma vírgula do ocorrido. E cada vez que se locomovia pelo bairro, lá estava os rastros do culpado e também da mensagem. Esta última, seguia seus pensamentos forçando de tudo um pouco pra se converter em atitudes.

A vingança é um prato que deve ser servido frio. Gelado, quem sabe, congelado, talvez. Que ironia! Afinal, ela adorava sorvete. E por sentir que sempre teve mais afinidade com a dor do que com a benevolência, esqueceu-se da escola, do futuro, da vida espiritual e da esperança, enquanto fazia a vingança valer a pena em cada bala que rasgava a carne do estuprador.

A noite em que sucedera o fato era chuvosa, porém quente, tão quente quanto as gotículas de sangue desenhadas em seu belo rosto. Depois que devolveu a pistola ao ex-namorado, ela decidiu abandonar a casa, a família, a favela, a janela. Quis mergulhar no mundo e viver na base da própria sorte.

Se o tempo for de fato como um caderno, não há o que impeça um indivíduo de lança-lo no fogo, ao contrário de ler, escrever e desenvolver temáticas sobre o mesmo. Não há o que impeça alguém de aproveitar cada momento enquanto assiste suas próprias páginas queimando, se contorcendo e escurecendo até poder no fim, assistir suas migalhas sendo carregadas pelo vento, passando a estar em toda parte, tornando-se eternas.

Gozado! Este é exatamente o fim de cada cartaz de estação quando deixava o outdoor. Já Bianca, nada se sabe…

3 comentários em “As estações da tristeza

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  1. Olá!!!

    Gostei muito da essência do texto. Quantas Biancas existem? Sempre me vem esse tipo de pergunta quando leio um texto desses…

    Fiquei só pensando na imagem… Não sei, pra mim ela não conversa muito com o belo texto. Mas é isso aí, vim dar pitaco sem ser chamada… Rs

    Beijos!

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    1. Você é livre para comentar quando quiser meu bem. Agradeço por isso. E.. de fato! Ela possui essa personalidade.

      Não quis trabalhar um pouco mais a personagem pois, nos últimos meses, estou numa pegada de tentar bolar contos bons e curtos.

      Até então a coisa está fluindo 😉

      Curtido por 1 pessoa

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