Homens e chances

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A brincadeira começou logo após uma pergunta chave, numa roda de amigos. Visto que a maioria do grupo era composta por garotas, um dos rapazes lançou certa questão inocente no ar que, mal sabe ele, utilizei durante muitos anos na lapidação da minha própria personalidade. “Eae, garotas! Quais são os tipos de rapazes que mais atraem vocês? ” –Indagou, “na lata”, como dizem no bom carioquês. Depois de alguns sorrisos e desconversas (típicas de quem nunca pensou no assunto), algumas almas resolveram se manifestar, para o alívio do rapaz que provavelmente se basearia nos arquétipos listados pra transar com alguém, quem sabe na mesma noite. Dos homens no local, só não houve alívio mesmo para a minha mente calculista, visto que nada do que foi dito me agradou de imediato.

Gosto dos militares! – Afirmou a primeira garota. Não obstante, prosseguiu: “Eles são fortes, protetores, leais e muito sexys”.

Gosto de surfistas! – Disse a segunda. “Sempre gostei de homens lindos! Loiros, altos, olhos azuis e cavanhaque… Não pediria mais nada”.

Eu prefiro os roqueiros! – Gritou a terceira moça.

Espera! Tu gostas de homens que não tomam banho? – Brincou um dos colegas… Todo mundo riu, em seguida ela retomou a vez tentando explicar o próprio “paladar” para relacionamentos;

Não é isso… Prefiro roqueiros, daqueles fanáticos mesmo, sabe? Pelo estilo de vida e gosto musical, por andarem despreocupados com tudo. Pelo senso de aventura e loucura. A vida é muito curta pra desperdiçarmos com normalidades! – Concluiu.

A lista prosseguiu… bilionários, atores e modelos também foram citados como exemplares. Uma vez que o colega de grupo teve sua dúvida sanada, o assunto foi mudado. Da mesma forma, a interação da galera. Eu, por outro lado, levei a noite um pouco mais a sério e guardei aquelas informações. Não para incorporar os padrões “adoráveis” ao meu estilo de vida, na mais tola tentativa de agradar alguém. Além de não ser tão malicioso assim, considero todos os perfis traçados comuns, previsíveis e fáceis demais para se exercer. O meu foco era um pouco mais profundo – utilizei os dados obtidos para fins comparativos. Precisava saber de duas coisas: em qual das preferências de minhas amigas estava mais inclinado. E se caso não estivesse inclinado a nenhuma delas, então qual diabos seria o meu perfil?

Resolvi tirar um tempo para pensar no assunto e inicializar meus cotejos:

Apesar de nascer numa família de militares, não sou militar (ao menos, por enquanto) e sempre achei esse estereótipo um tanto quanto rúptil. Pelo menos, se tratando da abordagem romântica. E de imediato, quero deixar claro que todas as palavras citadas aqui, estarão sentadas nessa abordagem.

Creio que militares preenchem o imaginário sexual/amoroso de muitas garotas, entretanto além das cantadas manjadas e uma pegada um pouco mais, digamos, impulsiva. Não há muito do que se esperar. Ao começar minhas comparações, percebi que – romanticamente falando – de “soldado”, tinha muito pouco. Não sou homem de roupas esperadas, comportamentos padrões, ideais que não fogem do normal e rotina fixa. Gosto de mudanças, inovações, coisas distintas e sabores novos. Nada tão delicioso quanto mudar destinos, palavreados e cortes de cabelo… então, saltei para a próxima posição;

Se existisse um manual para atores, acredito que o perfil do surfista seria preenchido por apenas cinco ou seis páginas, pois é tudo muito simples, fácil e direto: um homem belo, com palavreado típico e físico invejável está longe do que tenho e do patamar no qual poderei chegar um dia. Além de não ter o gosto por pranchas, cigarros “naturais” e areia na sunga, sempre preferi uma boa temporada romântica num casebre sobre a montanha mais fria do mundo, do que o calor de qualquer praia nacional. Acho mais interessante a ideia de trabalhar a paixão dividindo o calor entre dois corpos, do que compartilhá-lo com o tão monótono clima externo.

Excluindo as opções anteriores, pensei no feitio do roqueiro e mesmo sendo eterno fã de rock alternativo, poucos minutos foram necessários para lançar minha cartada final sobre o assunto. Desde criança, gravei determinados valores no espírito como protocolos que levarei para a vida inteira. Alguns desses valores me impedem de andar por aí sem pensar no amanhã, sem semear pensamentos e atitudes que não garantem a colheita de benefícios algum dia. Logo, prefiro um emprego fixo ao invés de rodar pelo país sem rumo, prefiro carro no lugar de moto, cordões no lugar de faixa, piano no lugar de guitarra, independência ao invés de andar em bandos…

Em muito pouco tempo, na minha brincadeira de conferências idiotas, já pensava na possibilidade de morrer solteiro. Portanto, percebendo que minha primeira opção já estava frustrada, parti para o plano B e ele se manifestava em duas interrogações pessoais: que tipo de homem sou? E será que posso conquistar alguém?

Vamos ao apelo da terceira pessoa:

São 16hrs de um domingo chuvoso. Um homem sai do banho enrolado na toalha e busca, em primeiro lugar, uma fruta pra matar a fome, ao invés da própria roupa. Já exterminada a fome, ele ainda não pensa no armário e sim no celular. Na tela há um perfil com poucos álbuns, amigos distantes e colegas ausentes. Ele utiliza a foto de perfil, cuja qualidade está na linha tênue do habitual e um status feito duma frase meditativa que ele mesmo inventou. Esse homem quase não assiste TV, prefere ouvir o rádio. Melhor! Prefere ouvir sua lista de músicas no rádio, dificilmente ele aceita qualquer tipo de entretenimento que não tenha planejado previamente. Ele não ouve sertanejo, funk, pagode ou qualquer coisa relacionada a sua própria vizinhança e aos vizinhos da vizinhança. Sua playlist é iniciada com singles dos “Smiths”, “New Order”, “The national”, “Radiohead”, “Bon Jovi”… Até saltar para solos clássicos, como “Elton Jhon”, “Billy Idol”, “Robbie William”, “Bob Dylan”, “Phill Collins”, etc.

Depois de vestido e perfumado, ele se certifica que nada dê errado na noite que está para começar. Com um encontro marcado, verifica se as reservas feitas e transportes utilizados já estão preparados e, sem pressa alguma, deixa a casa completamente cônscio de que chegará no horário marcado. No caminho, troca a timeline do Facebook por um ou dois capítulos de bom livro, mesmo que esteja em formato digital. Respira fundo, tenta transmitir a maior sensação de tranquilidade e convicção de quem é e do que pode ou não pode fazer. O fim de semana está apenas começando e ele precisa aproveitar ao máximo, sem perder a linha (tanto emocional quanto de crédito) e sem esquecer a razão no banco do ônibus. Está nos seus planos se distrair e se divertir ao máximo que puder, visto que, durante a semana, passa 90% do seu tempo dividido entre os estudos e o trabalho. Ao chegar no local marcado ele então espera a sua companhia, sem muito desespero, sem brigar com o relógio, ou com a pretendia que supostamente já está em débito com ele.

Quando ela finalmente chega, ele a nota facilmente em meio à multidão e de imediato, sorri. Nesse momento, muitos dilemas surgem em sua cabeça. Temáticas que vão desde a jaqueta usada até filosofias mais profundas, como o próprio fato de que ele não se encaixa, nem como um bom militar certinho, nem como o surfista libidinoso e muito menos como o roqueiro “bad boy”. Por um segundo, sentiu medo. Contudo quando percebeu que sua companheira retribuíra o sorriso, tão logo a apreensão foi esquecida.

Uma vez que ela segura sua mão e se apresenta, ele percebe que é apenas um cara normal. E que sua normalidade era sua mais bela característica. Talvez fosse, até mesmo, o motivo que a fez topar o encontro.

Normalidade está em falta hoje em dia, tudo anda muito agrupado e polarizado, as personalidades estão confusas, os signos choramingando. E nessa pegada reflexiva, ele notou que no mundo atual, o “ser normal” tornou-se o “diferentão” – aquele que anda contra a maré. Ele coçou a cabeça e percebeu que muitos homens na situação dele irão se desiludir porque boa parte das mulheres não perceberam isso ainda. Todavia, sentiu-se feliz ao constatar que havia alguém ali, ao seu lado, capaz de captar isso e que meramente o amava do jeito que ele é.

Sou um cara de sorte! ”  – Disse a si mesmo. E em todas as épocas, isso sempre foi mais útil do que qualquer banda, prancha ou farda…

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