O Erudito e a Heroína

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Certa feita, refletiu o rapaz: como se convence um coração calejado de estar errado de que talvez, por sorte, quem sabe, essa não seja sua verdadeira natureza? De que talvez a felicidade não esteja resumida a relações perigosas e devaneios constantes? De que ela pode ser mais que isso; pode ser a essência capaz de mudar o mundo, transformando mentes e costumes, tribos e tribunais, segredos e desejos?

Só que ele era desses que refletia demais… tinha mais receio do que medo propriamente dito. Entretanto, sabia que um dia encontraria sua resposta. Por outro lado, ela já não duvidava, gostava! E ansiava por tudo com muito prazer…

Existem fases das quais não há palavras que ajudem, ou atitudes que consolem. Às vezes é a própria vida que, no decorrer de si mesma, atesta fatos que nos obrigam a optar pela transformação, pela coragem de alterar todas as coisas radicalmente. Ocasionalmente ela (a vida) faz isso jogando baixo, sem pedir licença. Todavia há outros períodos dos quais ela mesma adiciona elementos ao destino que modificam nossa visão do mundo que, geralmente, é triste e rebaixada.

Em resumo, no caso dele, a vida trouxe uma bela guria. Alguém que une todas as coisas, com um sorriso que cabe nas dezesseis faixas de um disco. Ela é a heroína de um mundo sem cores, a salvadora do descontente erudito. A garota que abriu sua janela de existência, viu aquele pobre rosto cansado da escuridão, sorriu e disse que alguém ali precisava fazer a barba.

Deveras o homem mais desleixado e desconfiante que existe, precisava apenas dum impulso sentimental para voltar a respirar. Sentimento que o fez reaparecer de ânimo renovado (e sem bigodes). Já, de imediato, preenchendo a própria alma de boas canções, a mente de novas cores e o corpo do aroma das mais belas flores. Nada religioso, nada metrossexualistico, pra tudo existia um motivo, cálculo pré-definido. E a razão era clara, pura e simples; agrada-la, conquista-la e ama-la, como agradecimento, paixão e aspiração. Logo nasceu junto a nova fase, certo desejo de convencê-la a partilhar bons momentos ao seu lado; Manhãs ensolaradas de caminhada na praia, quem sabe. Ou tardes serenas de sábado, fazendo bolos e travessuras.

Mas “a praia fica logo ali“, ela disse, certa vez. “E dias de chuvas são inexatos“, concluiu. Pena que, sendo inocente e direta, não fora capaz de perceber o cerne daquela metáfora – com a praia, ele dizia que prezava por um relacionamento duradouro. Com a chuva, dizia que estaria presente em todas as épocas turbulentas. Não havia ironia nas palavras, seu amor era diferenciado dos outros por fazer do útil algo agradável. Ela não sacou de imediato, porém seu coração (mais firme e sensato que o dele) catou a deixa. Naturalmente uma chance surgiu, a felicidade veio no pacote.

Iniciou-se então uma nova era. O esquisitão e a perfeitinha. Apelidos que as vezes eram trocados pelos amigos do casal, adjetivando um pelo outro. E eles, bem, eles detestavam os dois! Pensavam diferente de outrem. Depois que se ajustaram, perceberam rapidamente que, com um pouquinho de esforço, não existiria mais espaço para a tristeza na relação que pretendiam criar. Um casal experiente com os pretextos das lágrimas sabe todos os macetes necessários para evitá-las. Assim eles fazem, assim defendem e tudo ainda é muito pouco; só o princípio de todas as coisas.

Então… O erudito conclui seu pensamento: Como se convence um coração calejado de estar errado de que talvez, por sorte, quem sabe, essa não seja sua verdadeira natureza?

Amando, oras!”, responde a si mesmo. Pois só amando descobre-se o verdadeiro motivo pelo qual tal coração ainda bate…

 

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2 comentários em “O Erudito e a Heroína

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