Quiprocó

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O grande Sherlock

Nem sempre o fim de semana é capaz de me preparar para viver em sociedade. Digo, há dias que acordo e ligo o modo automático até o trabalho. Como ganho a vida lidando diretamente com meus clientes, sou obrigado a voltar ao normal na presença deles. Porém, removendo essa exceção obrigatória, sobra apenas o modo “piloto automático” para dias cansativos, ou para quando já se acorda cansado.

Trata-se de um modo consciente totalmente inerte – da casa para o ônibus, do ônibus para a estação ferroviária e por toda longa caminhada que vai do trem até a chegada na empresa. Tudo de forma robótica. Ao ponto de, depois, ser totalmente incapaz de lembrar se o dia estava chuvoso, ou se era o sol – no lugar dos pensamentos – torrando a minha cuca.

Ter esse tipo de personalidade soa de forma quase irônica, ainda mais para quem é detalhista ao nível “Sherlock Homes” de vida. Mas as vezes não estamos preparados para suportar a máquina social do dia-dia. São muitas informações diretas e indiretas que nascem e nos confrontam. Diria, com uma larga modéstia, que mais da metade delas são desnecessárias.

Convenhamos! Pra ser sincero, quase que tudo que ouvimos na rua é dispensável. Eu não me importo com o que (ou quem) o motorista comeu no dia anterior, com os remédios que a velhinha vai pegar amanhã, com os filhos da vizinha que não procuram emprego, com os estudantes falando de futebol, com o papo (entre desconhecidos no trem) sobre a crise política do país, ou das mulheres na estação sobre o melhor tipo de homem pra se ter ao lado pelo resto da vida.
Imagina o quão complicado minha manhã seria, caso parasse para dissecar cada particularidade? Cada informação inútil?

Diria ao motorista para desistir das batatas (ou do sexo), pois nenhum dos dois estão lhe ajudando com o problema da disposição. Oras, nunca vi ninguém tão lento atrás do volante! O prato de batata deve ser finalizado em meia hora antes dos roncos. A possível mulher, bem, com sorte, em dois minutos.

Diria a velhinha, com todo respeito do mundo, que não há nenhuma necessidade dela estar acordada tão cedo, principalmente se os remédios só estarão acessíveis no dia seguinte.

Diria a vizinha que se naquele ponto da vida, com mais de quarenta anos, ela julga necessário acordar de madrugada para sustentar filhos que só levantam cedo pra fazer novos netos, então não existe mais nada a ser feito com relação ao aprendizado deles – ou ela confessa a desistência, ou não reclama da escravidão plantada pela própria educação ruim.

Diria aos estudantes que o Flamengo é o melhor time do mundo e aos desconhecidos, que a Dilma vai cair sim! E todo império populista será eliminado junto!

Também diria as mulheres que o melhor tipo de homem possui características variadas. Dentre tantas, explicaria que, certamente, ele precisaria ser observador, já que o modo automático é uma ferramenta exclusiva do homem, confesso. E jamais poderá ser usada contra as mulheres. Caso contrário, as chances de perdê-las para um boy detalhista serão enormes.

Acredito que estar apaixonado por uma, foi o combustível responsável por observar certas minúcias das quais não dava a mínima anteriormente. Responsável também, por me lembrar o quanto uma manhã ensolarada é linda.

É claro que com o coração pulsando mais forte ou não, jamais sairia falando tudo que penso das pessoas no caminho até o trabalho. Seria assinar o atestado de suicídio. Similarmente, não vou excluir a possibilidade de estar errado em todos os pré-conceitos criados. Contudo, como disse uma vez, madame Émile August: “Prefiro um pensamento falso a uma rotina verdadeira”.

Talvez não deva tapar meus ouvidos, nem ser igual ao resto do mundo para ter uma rotina infeliz, de fácil dedução. Talvez o modo automático seja parte da infelicidade.

E nesses casos, só o poder da dedução é capaz de nos fornecer um pouco de graça no jeito mecânico do mundo (além do único método pra conseguir a atenção de uma mulher).

Acho que é por ficar pensando em tudo isso, que as nuvens já taparam o céu há tempos, mas um pouco de tudo continua queimando na minha cabeça…

– Leonardo Veiga

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