Lágrimas efêmeras

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Todo escritor é atacado, às vezes, por um certo bloqueio mental. Um tipo de impasse que provavelmente atinge todas as classes de pensadores, desde escritores profissionais até amadores de bons rabiscos. Nesse bloqueio, tudo se resume a falta de conclusão para uma ideia inicial. Qualquer autor humilde concorda que é um tanto complicado bolar um bom desfecho, uma etapa final ou quem sabe, qualquer tipo de mensagem que traga sentido e reflexão aos leitores.
Reparei que tudo fica ainda mais difícil quando se está desenvolvendo uma estória triste/negativa/depressiva/maléfica. No momento em que desejamos lançar ao papel uma nova crônica, um conto ou uma narrativa comum que descreva a trajetória de alguém que não deu muito certo na vida, cedo ou tarde, a imaginação começa a se fechar. Seja para inventar novos conceitos, seja para lembrar das palavras mais básicas. No final das contas, a estória fica sem final ou (no mínimo) com um final bem cagado.

Foi o que aconteceu nos últimos romances que tentei desenvolver. A literatura melancólica é muito traiçoeira -, teve de tudo um pouco nos contos que escrevi; uma jardineira solteirona e solitária, um jovem drogado que perdeu os pais numa tragédia, um quarentão homossexual dos anos 80, uma adolescente socialite que sofreu abusos sexuais, um senhor de idade sobrevivendo ao apocalipse… Enfim, todos eles jamais chegaram perto da visão pública, nunca saíram do meu quarto. São contos que ninguém leu e que provavelmente jamais lerão. O motivo é muito simples: o desfecho desses contos se resume ao fato de não haver desfecho algum!

E depois de muito buscar, vi que não era exatamente um defeito pessoal. Descobri que existe um conceito filosófico por trás disso, uma razão psicológica. Em resumo, o problema é um só:

Acontece que não somos biologicamente preparados para fazer da tristeza um modo de vida. Levar uma existência triste meramente por gosto é apenas uma das pragas (e dádivas) da sociedade moderna. Graças a evolução, a mente humana não é preparada para “ser” triste. Não do início ao fim, não do berço ao funeral. Somos preparados para momentos e temporadas de tristeza. Nos preparamos para o “estar” triste e não para o “ser”. E “estar” se resume a ideia de que, tudo aquilo que é ruim, também é passageiro. Por isso as histórias de amor, aventura, ação e ficção são relativamente simples de se concluir;

No amor, o mocinho e a mocinha ficam juntos no final.

Na aventura, o herói vence a batalha.

Com ação, os bonzinhos ganham a guerra.

Independente dos problemas, conflitos e dores enfrentados, habitualmente uma coisa é certa: o bem vencerá no final. Isso é confortante, conclusão da qual nossa psique espera.

Escrever temas abatidos, estórias pessimistas e não criar um final bom o bastante para solucionar todos os problemas narrados é um tiro na cabeça de qualquer escritor. Boa parte do público não compreende uma mensagem ausente de qualquer rastro de fé, uma mensagem que não lhe ranque sorrisos no término.

Não somos preparados para o sofrimento constante, como espécie esperamos e aguardamos um final feliz, mesmo quando já não existe chance alguma.

A alma humana é esperançosa, apesar dos apesares. E é este senso de esperança que bloqueia a mente dos escritores. É o mesmo senso que mancha de raiva o coração dos leitores que não se satisfazem com um final amuado e desfavorável.

É por isso que os filmes de terror nunca possuem finais que descem pela garganta. É por isso que contos angustiantes chegam ao epílogo com cara de que ainda está na metade.

Somos programados para enxergar uma luz no fim do túnel. Todos nós precisamos de felicidade – quem ainda não possui pelo menos sonha com o aguardado dia.

É irônico e condolente pensar em tudo isso…

Irônico porque o mesmo cara que se vê deprimido também foi capaz de notar tamanho comportamento coletivo. Condolente, porque mesmo sabendo que não haverá conclusão para alguns de seus bons contos, ele sabe que ainda é capaz de observar a luz no fim do túnel. E mesmo sabendo dos riscos de perder um futuro bom livro, nada apaga a alegria inicial de perceber que as nuvens negras outrora tidas como pessoais, são inteligíveis e passageiras…

2 comentários em “Lágrimas efêmeras

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