Camomila

 

A camomila é uma planta interessante, suas flores são semelhantes a pequenas margaridas brancas. Ela ornamenta, é odorizante e é benéfica à saúde, pois possui várias propriedades medicinais, sendo muito utilizada como calmante. Há quem a use para clarear o cabelo e hidratar a pele. Há também quem diga que ela produza saúde para as plantas a sua volta e…

Ana Karenina possuía um pezinho de camomila, plantado em frente à janela do seu quarto. Ela ganhou a plantinha de presente de Nicolas. Ele mesmo a plantou em frente à janela para que todas as manhãs ela pudesse sentir o perfume entrar com o vento e lembrar-se o quanto ele a amava.

Ana não era uma moça comum. E nesse momento, a sua mãe analisa com delicadeza aquela face e tenta encontrar a menina que ela havia dado a luz. Seu rosto estava magro, seus olhos em uma constante expressão de angústia e seus cabelos desajeitados, prendidos com um palito de madeira. Com cuidado, ela se movimenta no quarto para não acordar a filha e mais uma vez irá jantar sozinha.

No outro dia Ana poderia acordar com fortes dores devido à fibromialgia e começar a se encher de antidepressivos.

Os remédios já não valiam de nada. O médico havia trocado tudo por placebos, isso porque as dores de Ana residiam em seu psicológico. E ela sempre tomava também um copo de chá de camomila, como um calmante inicial – Nicolas a havia recomendado. Ele queria fazê-la entender a vida, queria mostrá-la o lado bom das coisas, sonhava poder tirar aquela angústia roxa dos olhos de Ana com suas próprias mãos.

E cuidar da camomila seria uma suposta terapia.

Eles a plantariam juntos e ela teria o dever de molhá-la todas as manhãs. Porém, Nico plantou a camomila, sozinho – Ana estava ocupada demais olhando o teto branco de seu quarto.

Ana molhou a plantinha apenas uma vez, ela tirou um copo de água do jarro e a regou pela janela. Mas nunca se passou um dia sem que ela não perguntasse a sua mãe sobre o pezinho de camomila ou que a pedisse gentilmente que ele fosse regado.

Em setembro a plantinha estava toda florida…

Porém, Nicolas havia desistido da namorada. Tinha mudado de cidade e de emprego. Ele a amava, mas sentia que não podia fazer mais nada por ela. Na despedida, ele contornou com os dedos os lábios da menina, como se quisesse desenhá-los em sua mente, deu-lhe um beijo que ela pareceu não perceber e se foi.

Depois disso, Ana passou a manter vez ou outra um rosto congelado, com estranhas lágrimas escorrendo sem interrupção por sua face – era como uma estátua chorando.

Em dezembro as flores da camomila haviam secado e restavam apenas as sementes. Estranhamente alguns galhinhos da planta haviam se secado também, tornando-se gravetos finos e quebradiços, que Ana gostava de quebrá-los nas mãos. Ela passava algum tempo sentada na grama fazendo isso.

Cada vez mais preocupada, a sua mãe a observava da janela. Em contraste a essa cena, na sala havia um antigo porta retratos de uma garotinha sorridente brincando com argila, seu vestido florido todo acinzentado e um cabelo volumoso despenteado como um mico-leão-dourado. Era Ana quando ainda era ela.

A mãe de Ana pegou o porta retratos e o levou até ela,  levou também o gatinho que a filha tanto amava.

Em um raro momento, Ana sorriu ao olhar a foto. Pegou o gatinho e acariciou com as suas mãos magras as bochechas gordas do bichinho.

Sua mãe segurou o seu rosto e o levantou com os dedos, espantou-se, queria chorar e dizer o quanto ela estava magra. Mas, disfarçou um leve sorriso e disse: Você é linda!

Ana suspirou, estava fraca, resolveu que deitaria um pouco.

O tempo passava e, durante as manhãs a sua mãe regava e cuidava de todas as plantas, era o seu hobby, mas nutria um carinho especial pela plantinha da filha, que brotara novamente.

Ana Karenina assistia tudo pela janela com o seu olhar mórbido.

E embora fosse tão bem cuidada, estranhamente a pobre camomila estava secando de novo. Alguns de seus galhinhos verdes estavam aos poucos sendo substituídos por tons amarelados e, por fim, marrons.

Um dia Ana acordou sentindo fortes dores no peito. Aos poucos ela foi empalidecendo, foi ficando distante até sumir. Em um último delírio ela disse “regue minha plantinha”.

Nos dias que se seguiram a sua mãe regou a planta com cuidado, adubou-a com cascas de laranjas, porém em pouco tempo a camomila verdinha já não existia.

Nico veio lamentar-se por Ana, chorou, culpou-se – tarde demais…

A camomila estava morta e Ana…

Também.

Triste fim o meu
Que fiquei sem meu amor
Com o tempo a me domar
A me ensinar a esquecer
E fez da minha dor graça pra outra mulher
Me tratou como uma qualquer
E riu do meu sofrer

– Phill Veras

7 comentários em “Camomila

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