Uma canção sem voz

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“Minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas… Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia”

– Friedrich Nietzsche

 

Nós estamos no futuro, amigos leitores. Acredito fielmente nisso, até que o amanhã me prove o contrário. E falando do futuro, hoje usufrui um pouco das vantagens tecnológicas dessa era, explorando minha enorme fonoteca pessoal que ao invés de se resumir a um andar inteiro de discos, paradoxalmente, ocupa apenas uma pequena fração de um micro cartão menor que o meu dedo. E nas últimas semanas, duas das milhares de faixas pessoais que tenho, encantaram meu imaginário privado. São elas: “Solidão que nada” do nosso grandioso Cazuza e “Sagrado coração”, canção perfeita da banda Legião Urbana que, originalmente, foi lançada apenas em instrumental, já que Renato não vivera a tempo de conseguir canta-la.

Utilizei os dois sucessos para escrever textos distintos que levariam o nome das músicas como homenagem. Durante os últimos dias, dividi o pouco tempo livre que tinha nos intervalos do trabalho, para desenvolve-los. Porém, com a rotina pesada, acabou que ambos não foram concluídos, deixando-me sem ter exatamente o que passar a vocês, amados leitores. E por alguns dias, fiquei mergulhado nessa tristeza, até que a própria chateação me atentou para algo ainda não percebido. Confesso: É incrível como o inconsciente humano trabalha – com “Sagrado coração”, faria uma poesia sobre a saudade. E sacaria “Solidão que nada” numa narrativa sobre comportamento da juventude local. Todavia percebi, no mesmo hiato cavado entre os conceitos, que as músicas apesar de diferentes, carregam consigo a mesma mensagem. Elucidadas, claramente, em óticas singulares.

Quem já ouviu “Solidão que nada” sabe que a música de Cazuza é de completo teor pessoal, ele tenta demonstrar o quanto sua vida corrida, de cidade em cidade, é boa e divertida. Porém qualquer fã atento percebe que na verdade, ele estava mentindo. Tudo aquilo era um grande teatro. Cazuza se sentia sozinho, mas não confessava. Já em “Sagrado coração“, apesar do destino não ter deixado Renato trabalhar toda emoção da composição com sua linda voz, sabemos o poder daquela letra. E qualquer um que já leu a canção, sabe que o belo Song é de fato, um pedido de socorro. Uma mensagem desenvolvida por alguém que não aguentava mais a vida, por alguém que estava só e que buscava algo lindo além do horizonte, além da inevitável solidão.

Então, no fim das contas, tenho como fonte de inspiração um “ator” que esconde a própria dor de estar só no infatigável dia-dia e um trovador solitário que, na beira do precipício, sonha com a comunhão eterna; um lugar de aconchego amor e descanso. Percebo de imediato, que existiu um motivo pelo qual não conclui os textos – uma reflexão pessoal. E ela é simples, clara, objetiva e direta ao me indagar: em que tipo de situação estou enquadrado? Será que me sinto só? Será que estou omitindo tamanha dor, ou será que estou pedindo ajuda?

Bem… Só percebemos certos problemas quando a própria mente assume o dever de nos orientar, pregando peças aleatórias a fim de nos deixar pensativos. Devo confessar que é algo bem chato, principalmente para escritores que gostam de conceder este belo prazer nos leitores. A sensação é a de que o tiro saiu pela culatra.

E como eu disse: nós já estamos no futuro… É triste saber que o mal dos séculos é o mesmo de ontem e será o mesmo de amanhã – ninguém pode com a solidão. Os meus poetas estão mortos, carregaram no passado as mesmas dores que ainda hoje, nenhuma tecnologia é capaz de cicatrizar. O tempo passa, as coisas se transformam e as playlists acabam. As dúvidas permanecem, como se a vida estivesse resumida num “Museu de grandes novidades”, ou um belo “Teatro de vampiros”. Seja escondendo ou confessando nossos medos pessoais, apenas o bom e velho rock é capaz de afogar alguns demônios internos. A moral que fica é a mesma de ontem, hoje ou de quando os carros estiverem flutuando: a solidão machuca, mas o rock anestesia. Aceita-la ou nega-la é uma opção, mas vive-la é e sempre será inevitável. Sobreviver se resume a aumentar as doses diárias, ou nesse caso, a lista de álbuns na fonoteca…

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