Erva-doce

O vento, extraordinariamente sereno e tênue soprava trazendo um perfume doce e delicado.
Ele, estava lá fora, aquecendo-se no sol, intensamente verde, dançava ao vento como a bailarina de uma caixinha de música, gotinhas de água penduravam-se em suas folhinhas compridas, seus galhinhos estavam cheios de botões que em breve se tornariam pequenas flores amarelas.
Ela abriu a janela para vê-lo, feliz deu-lhe bom  dia, logicamente ele não podia ouvi-la, nem o vento que  inconsciente, soprou em sua direção o ar adocicado vindo dos galhos do Funcho.
Sorriu, ele também parecia sorrir, assim ao sol, parecia exibir-se para ela.
Então, ela fez o que fazia todas as manhãs, pegou a caneta e um papel e começou a escrever sobre ele, o destinatário era sempre o mesmo, e as cartas ficavam arquivadas em uma pasta de papel verde, escrita com pincel preto “Cartas para Benjamin”. Aquelas cartas nunca seriam entregues, Benjamin nunca saberia que todas as manhãs alguém se levantava e enquanto tomava chá de erva-doce lhe escrevia cartas contando coisas da vida e a rotina de um pezinho de Funcho de quintal.
Estranhamente ele gostaria de ter sabido disso.
Era Sábado, e o dia estava sereno.
Às 10:00 ela saiu de casa, para comprar maçã e canela.                                                 Parecia tudo previsto, mas não estava.
As maças estavam lindas, coloridas de um vermelho vinho, algumas partes pareciam contornadas de preto, eram grandes e esbeltas.
Comprou três maças e um potinho de canela em pó.
A beleza das maças despertou um sorriso em seu rosto, que aparentava vago aos olhos de quem a via, já que Flora, naquele momento, estava longe dali.
O céu estava aberto, mas como que brincando começou a chover. Uma chuva fina caía lá fora, Flora amava andar na chuva, então ficou feliz por não ter trazido guarda-chuva. Ninguém sairia de casa com um guarda chuva naquele dia, com exceto do rapaz, que parado na porta do supermercado, conferia sua sacola de compras.
-Moça tem dois potinhos de canela aqui! – Ele disse para a operadora de caixa.
Flora, olhou para suas compras e notou que estava faltando seu potinho de canela.
– É me… – Então ela levantou a cabeça e antes que pudesse terminar de falar, não acreditou no que estava vendo, era Benjamin na sua frente,  estendo-lhe um potinho amarelo.
 Ele sorriu simpaticamente, Flora abriu levemente os lábios, expressando um susto que ninguém além dela mesma entenderia.
Benjamin continuou sorrindo, esperando que ela sorrisse de volta, Flora virou-se para a moça do caixa esperando que ela passa-se suas compras. Decepcionado ele se foi.
Flora foi na chuva, e  contradizendo ao que os escritores da segunda geração do romantismo poetavam, o tempo não acompanhava os seus sentimentos, o dia estava feliz, a chuva caia fina nos ombros de Flora, que  contrastava-se com o calorzinho do sol brincalhão, mas dentro do seu coração, parecia ter um céu medonho repletos de relâmpagos e trovões.
Flora chegou em casa, o Funcho continuava feliz, seus galhos ainda mais enfeitados pelas gotinhas que o regavam voluntariamente, percebia-se de longe o seu perfume, ela  lhe sorriu triste.
Entrou para casa e começou o preparo do bolo de maça com canela.
Descascou as maças, reservou as cascas, picou-as em cubos pequenos, até que o interfone tocou. Algumas lágrimas escorriam no seu rosto,  mas o som do interfone as fizeram cessar subitamente. Ela lavou as mãos. Olhou pelo olho-mágico, mas não era Benjamin, (E como poderia ser!).
Ela convidou-me para entrar.
– Oi… Fique a vontade!
– Obrigada Flora! – eu disse observando seus olhos vermelhos.
Durante a tarde comemos bolo de maça e bebemos chá de erva-doce.
O chá perfumou toda a casa, o cheirinho agradável cobria o ambiente, ela  contou-me sobre as cartas, sobre Benjamin e o esbelto pé de Funcho.
Ela já estava calma e com um rostinho feliz.
Disse que lançaria ao vento as “cartas para Benjamin”.
– Mas Flora, você escreveu essas cartas durante tanto tempo, diariamente, poderia fazer um livro, sei lá …

– Quem sabe o vento faça o que eu nunca tive coragem de fazer…
Quando eu estava indo embora, Flora veio-me com uma pasta verde.

– Quero que quando você estiver no alto da serra, no fim daquelas curvas perigosas…

– Perto da  marca de um  acidente?

– Não! Mais adiante onde as pessoas param para tirar fotos.
 

Ah sim!

– Estacione o carro e jogue minhas cartas de lá!

– Flora, não me peça isso…

– Faça isso, por favor! – Ela colocou a pasta em minhas mãos, apertando-as com as suas, olhou-me nos olhos. Seus olhos estavam confiantes .
Suspirei fundo peguei a pasta e sai.
Enquanto eu subia a serra, o sentimento de medo mesclava-se com a torcida que eu tinha, de enc0ntrar vários turistas se fotografando, assim não haveria como desfazer-me daquelas cartas.
Porém, quando cheguei não havia ninguém, e o vento extraordinariamente brando, fazia-me um leve carinho. Por um minuto parei perto de uma árvore bastante conhecida naquele lugar, observei tudo de lá de cima.
Via-se muita coisa, inclusive as pousadas tranquilas, a natureza verde intenso como o funcho de Flora, abri a pasta e um cheiro de erva-doce tomou o ar. Fechei meus olhos e joguei as cartas, quando abri os olhos as vi sendo levadas pelo vento. O cheiro de erva-doce  intensificou-se, isso porque o cheiro do chá da manhã que Flora bebia, afixou-se nelas, e agora era docemente desprendido pelo vento.
O vento levava as cartas e eu aproveitava o ar perfumado, sentia-me muito bem ali, mas tinha certeza que elas não seriam levadas a Benjamin…

Subitamente, veio-me o pensamento: as cartas de amor de Flora, agora poluíam o ambiente, desesperada, olhei para baixo, quis ter asas para resgatar as cartas, que romanticamente vez ou outra eram arrastadas do seu lugar pelo vento.

 

10 comentários em “Erva-doce

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  1. Ótimo conto! Eu compreendo a Flora, sua protagonista (não digo o motivo para não revelar elementos do texto), que faz com que o leitor se apegue. A história flui muito bem, é como uma bela sinestesia ao misturar sensações de cheiro e gosto e nos fazer sentir tudo isso. Parabéns, Andrea Gonçalves!

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