Chá ou Café?

Ontem, assim que me levantei da cama, nem mesmo tive tempo de por os pés no chão e de repente me chamou a atenção, o tempo novo que se via lá fora. Chovia serenamente, uma paz enchia o ambiente e as árvores da entrada estavam cobertas de gotas D’água.

Olhei em volta procurando onde tinha deixado as minhas chaves, enfim as encontrei em cima da escrivaninha, sobre o último vestígio de quem eu havia sido, suspirei fundo, peguei aquele papel, amassei-o e iria jogá-lo no lixo, mas por um momento veio-me a curiosidade e o desejo de vê-lo sendo descomposto vagarosamente pela chuva fina. Então, atirei-o pela janela, as gotas da chuva transformavam em gotas azuis cada palavra escrita, cada vestígio de quem um dia chamei de “eu”.

Estava tão concentrada em ver aquele papel sendo destruído, que não vi quando Estela entrou no quarto. Ela, colocou as mãos em meus ombros acariciando-me levemente, assustei-me e virei-me bruscamente:
 

-Ah Estela! Que susto!

-Que isso! Pensou que era quem?

– Eu sei lá, não vi você chegar…

– Cheguei agora! – Ela se aproxima da janela e olha o ambiente lá fora -Acho que a estrada está mais seca hoje.

– Sim, a chuva está fina e o horizonte mais nítido.

– Vai embora hoje?

– Não sei, ainda tenho medo de dirigir nessa estrada em tempo de chuva.

– Sabia que você seria uma péssima motorista!

– Ei! Como assim? Eu te vencia em todas as corridas de bicicleta!
Estela aproximou-se, olhando para baixo colocou as mão em meus ombros, levantou a cabeça e olhou-me nos olhos, e com um sorriso frouxo, disse-me:

– Mas isso faz tempo!

Tentei nesse momento,  captar algo em seus olhos, mas eles, mais uma vez, não diziam nada. Como sempre, estavam  em planejamento, sem manifestar algo de concreto, piscavam em uma velocidade absurdamente lenta, e sempre eram apenas olhos calmos e lentos.

Pela janela, avistei César chegar com a sua tranquilidade corriqueira e o seu jeito encantador do interior.

Estela saiu, acho que para encontrá-lo. Vesti-me e escovei meus dentes. Quando sai do quarto, encontrei César na mesa tomando uma xícara de café.
Ele sorriu torto (ele sempre sorri assim).

– Café moça?

– Sabe que eu não tomo café!– Sorri – Acho que vou embora hoje…

– Por quê? Não quer ficar mais um pouco?

– Quero ficar, mas não posso, tenho coisas a fazer…

– Não irei insistir, agora és uma pessoa atarefada, largou o seu estilo de vida!

– Não seja chato, sabe que preciso trabalhar, estudar, de alguma forma viver, certo?

– Certo Ana! Sabe que eu te entendo! Perdeu o medo de ir nessa estrada?

– Eu vou com medo mesmo!

– Hum… Mas cuidado com os “seres perigosos do campo” hein!

– Que seres César? Além do mais, eu sei me defender sozinha! Viu? Estou fazendo exercícios! (César riu).

– Deve aumentar a quantidade viu! Essa criatura de blusa de lã e coque no cabelo, me parece tão indefesa!

– Deixa disso tá bom! Eu vou embora hoje e pronto!

– Tá bom! – César bebeu um pouco do café, olhou-me sorrindo e meneando a cabeça, enquanto eu pegava um pouco de chá.
A tarde, ele me  ajudou a levar minhas coisas para o carro. Abracei-o e pude perceber seus olhos umedecidos, enquanto Estela, olhava-me docemente com o olhar de sempre.

– Tchau Ana, volta tá bom?

– Eu volto! – sorri dando-lhe um abraço.
César colocou suas mãos em meus ombros, olhou-me nos olhos e me abraçou.

– Cuide-se Ana… – Disse-me.

Então,  a última imagem que tive dos dois, foi a de um borrão no meu retrovisor embaçado. Foi  até divertido dirigir na estrada molhada, quando cheguei na BR, senti saudade do barulho das rodas nas pedras, das poças de água…

Assim que cheguei no meu apartamento, dei-me conta de que agora eu estava novamente em meu mundo. Tomei um banho e depois fiquei pensando no que tinha nos acontecido, lembrei-me do início e do fim.

O fim, foi quando te vi pela última vez, eu estava parada, como sempre exercendo o papel que você havia me colocado na sua vida: A mulher que você amava!

Esperava sentada e feliz, quando o vi passar por mim sem me dizer nada.

Ali foi o fim, não o meu, não o seu, mas o fim da história, do conto, ou do que você achar melhor…

Então eu firmemente mantive-me feliz, sentada, seguindo o meu Script, não houve mudança de roteiro, apenas ausência de um personagem. Logicamente, tudo o que eu queria, é que as coisas voltassem a ser como eram antes, mas isso não dependeria apenas de mim, eu era a autora do meu filme, não do seu.
Tirei o casaco, sentei-me no sofá, e  lembrei-me do início: Você estava sentado em uma das mesas lendo um livro, não pude deixar de notar que você molhava a pontas dos dedos para passar as páginas.

– Bom dia! – Você não me ouviu, permanecia concentrado no livro – Bom dia! – Eu disse novamente.

Olhando para o livro, você sorriu de algo que tinha lido, olhou-me com uma carinha boa e perguntou-me:

– Quem é você?

– Ana Olive! – Então você sorriu

– Chá ou café? – Eu disse preparando-me para anotar o pedido.

– Café!
Fui despertada dessas lembranças pelo sorriso que se abria em meus lábios, estava ali, sentada no sofá, rindo-me de você, mais uma vez, como nunca mais, e como sempre você me fez sorrir!

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