Rotatividade Romântica

Acordei com o ressoar do temporal atravessando o basculante do quarto. Tudo estava tão bom e pela primeira vez em tanto tempo, o mundo parecia calmo. Tão calmo quanto as samambaias na sacada que, no silêncio da madrugada, eram salpicadas pela chuva.

Por um segundo, pensei em levantar. Mas a noite estava fria e ali, deitado, sentia-me aquecido. Namorei as lembranças que surgiam no reflexo do ventilador de teto por um bom tempo… Ah cara! Batalhei tanto para que esse dia chegasse! Um dia no qual pudesse acordar de madrugada sem nenhuma frustração, memória ruim ou fragmento obscuro do passado. A felicidade circulava em minhas veias, há anos esperei por isso! Agora, o momento parecia sussurrar que cada dia de espera valerá a pena…

No meu peito, sinto o vapor de uma boca excitada, dedos tocam a minha nuca e um olhar apaixonado mira meu rosto em meio a penumbra – Ela é a mulher mais bela do mundo! E por ora, descansa em meus braços. Hoje posso tê-la, só pra mim! E não há mais ninguém no mundo que compartilhará essa maravilha: Explorar seu lindo corpo é, a partir de hoje, meu dever exclusivo e prazer unigênito.

O tempo passou e me deixei levar pelo amor no ambiente; o clima da noite de núpcias, o som natural da cidade girando lá fora, as luzes da árvore de natal próxima a janela e o cheiro exclusivo da junção de nossos perfumes. Foi impossível não viajar nas memórias, até a hora em que minha amada me puxou para a terra novamente com um sorriso sincero e o gosto do seu beijo:

Amor…

Sim! – Respondi de imediato.

Ela chamou bem baixinho. Inicialmente, achei que era um convite para voltarmos ao mesmo clima que, anteriormente, fez-me joga-la na cama e rasgar seu vestido de noiva. Contudo, estava sendo apenas leviano, pra variar… Dessa vez ela queria apenas conversar, então esforcei-me para manter a concentração. Alisei seu rosto e disse alguma besteira enquanto viajava com o polegar na sua sobrancelha esquerda. Ela me analisava profundamente, como quem ainda não acreditara em tudo aquilo. Depois daquela eternidade presa em segundos, comecei a tagarelar:

Espero que esteja tão feliz quanto Eu… Sequer consigo dormir, já estou acordado há um bom tempo. Fiquei daqui vendo você dormir, sabe? Babando no meu peito! Haha! É a coisa mais linda do mundo. – Disse com toda sinceridade.

Seu filho da mãe! – Ela sorriu. Logo em seguida se afastou e tentou arrumar a aparência; pura vaidade! Naquele momento, seu visual era a última coisa na qual me importaria.

Estou brincando amor, você sabe que sou um idiota. – Fui sincero.

Hanham… Mas Eu te amo assim mesmo.

Eu sei. Eu também te amo…

Também não consigo dormir, vira e mexe acordo com o barulho dos trovões. – Seu sono era mesmo leve.

Hum… Calma, estou aqui contigo.

Sei que está. Agora me diz; – ela voltou a deitar sobre meu corpo – no que é que você estava pensando?

Na gente! Em tudo que passamos e vivemos… É complicado medir e tentar converter em palavras, mas agora sinto que um novo tempo está para começar, o pior já passou. Essa aliança no meu dedo significa que serei pra sempre seu e que você será pra sempre minha. Agora, já não dependo mais de títulos, de fases ou de argumentos para tentar convencer seus pais ou qualquer outro no mundo. Tudo que Eu preciso está aqui, no meu colo, sorrindo e bocejando. Talvez prestando atenção no que digo, talvez pensando numa pizza, nunca se sabe, né? Haha! Mas não importa. Eu lhe prometo que a partir de hoje, lutarei pela nossa felicidade e colorarei o nosso amor acima de tudo. Independentemente do que aconteça, estarei aqui ao seu lado, de pé ou deitado, pro que der e vier. Até quando chegarmos no tempo em que só poderei ajudar deitado mesmo…

Ah! Seu idiota! Nossa noite foi tão boa, não me faça chorar agora…

Você não irá chorar, é uma menina de gelo, dessas que não se abalam por poucas coisas e tal…

Oh, meu Deus… Lá vem você! Nada a ver! Não sou de gelo, também me emociono. Você viu como foi hoje com nossos amigos na cerimônia.

Eu sei querida… Vem cá e me dá um beijo, que a gente converte essa emoção em outra coisa, rapidinho.

E precisa pedir? – ela me beijou novamente e desceu com seus lábios até meu pescoço. Pressionei seu corpo contra o meu e busquei senti-la ao máximo… Até que algo bem gelado tocou minha orelha, substituindo o clima pelo renascimento das memórias. Ela não notou que uma lágrima havia respingado em mim. Parece que a garota de gelo realmente havia derretido.

Quando ela percebeu que novamente  Eu estava me perdendo nos pensamentos, sentou-se na cama. Levantei, vesti o roupão e caminhei até a sacada. A chuva caia lá fora, as ruas de Toronto ficaram irreconhecíveis. Na avenida abaixo do hotel donde estávamos hospedados, nenhum carro passava graças a quantidade de neve acumulada na rua.

Por alguns minutos, estendi um assunto idiota sobre as plantas de plástico da varanda. Enquanto ela descobrira uma caixa de chocolate na gaveta da cama. Chocolate que, por padrão, é dado aos hospedes daqui. Quando finalmente fiquei quieto, percebi que, da cama, ela me devorava com o olhar sedento por companhia. Cocei a cabeça e voltei a observar a cidade pela janela. Aquela visão trouxe a lembrança dum sofrimento que tínhamos em comum, então resolvi relembra-lo;

Amor. Você lembra daquela vez, lá no Rio, quando voltávamos do trabalho e não havia nenhum trem na estação?

Sim… Chovia tanto quanto hoje.

Pois é, só há uma diferença clássica nessa história.

Qual?

Naquela vez, Eu não estava com você. Digo… Ainda não estávamos juntos. Você era estagiária na época, não é? Chegou tarde em casa e ficou na internet comendo chocolate, da mesma forma que está comendo agora.

É… Eu lembro. Mas ainda não entendi: qual seria a diferença se estivéssemos juntos ou não? Até porque não foi a última vez que precisei passar por algo semelhante, depois daquilo nós dois enfrentamos um bocado de coisas até chegarmos aqui.

Eu sei. É aonde quero chegar. Você! Nossa lua de mel, essa noite, esse corpo nu, esse chocolate… Tudo isso possui um significado especial. É a prova de que o mundo realmente dá voltas.

Amor, bem antes de você, algum físico solteirão descobriu isso… Sabemos que o mundo dá voltas, agora vem pra cá! Tá frio… Vem dá algumas voltas comigo, vem?! Duvido que o físico teve a sorte que você está tendo agora.

Hahaha! Eu vou querida. Juro que vou… É que, cara! Estamos casados e nos casamos no Canadá… Sei lá! Acho que só não caiu a ficha ainda.

Nem mesmo quando aquela velhinha no aeroporto te convidou para tomar um chá a sós na Suíça?

Não. Não foi a primeira vez que isso aconteceu.

Valeu, papa velhinhas…

Não falo da velha, mas sim do chá. Sua mãe também me ofereceu quando fui visita-la pela primeira vez, lembra?

Ah… E eu realmente espero que isso tenha mais a ver com o chá do que com a idade da minha mãe.

Hahaha! E tem, amor, juro que tem… – Menti caminhando novamente para a cama.

Quando voltei, ela deixou o doce de lado. Nos abraçamos e novamente dormimos juntos; durante a noite fizemos amor pelo tempo que sobrou. A chuva parou em algum momento antes do amanhecer e até que a luz invadisse o quarto, nenhum trovão foi capaz de acorda-la novamente.

Pela manhã, um alvoroço transpassou a porta. No corredor do hotel, alguns guias organizavam os hospedes para um passeio pela cidade. Acordei e busquei o café da manhã no saguão, porém só deixamos o hotel a tarde. O plano era ir de Toronto a Vancouver, numa viajem de quatro dias. Chegamos a estação pouco antes das 15hrs, horário de partida do trem. A quantidade absurda de neve nas botas não desanimou minha esposa que, rapidamente, ficou encantada com a visão da posição privilegiada de nossas poltronas. Sentamos e planejamos alguns pontos turísticos que haviam pelo trajeto, até o horário de partida do trem.

O problema surgiu trinta minutos após a saída; A tempestade voltou e nos obrigou a parar. Pelo rádio, fomos comunicados em inglês e em francês que precisaríamos descer na próxima estação, pois a quantidade absurda de neve impedia o seguimento da viagem. Descemos da locomotiva um tanto quanto desanimados, estar num país de primeiro mundo não apagava o trauma pessoal que dividíamos com relação aos problemas com trens.
Já na estação, minha esposa decidiu sair para comprar um lanche. Minutos depois ela reapareceu com um saco de pão de queijo nas mãos juntamente a dois copos de café expresso. Dividimos o lanche entre angustia e o tédio, até que ela resolveu provocar:

É parece que você realmente estava certo.

No que?

O Mundo dá voltas… E deu mesmo! Estamos aqui, do outro lado do Mundo, na mesma situação de sempre.

Ensaiei um olhar sem graça, dei de ombros e tentei levar a situação com indiferença. Mas resisti por pouco tempo: do nosso lado, um senhor que estava conversando pelo telefone – aparentemente com sua esposa – disse que se atrasaria para o jantar aquela noite, mas que sua estreia como professor no colégio local foi maravilhosa. Num dos trechos da conversa, ele deixou claro (em inglês) que “ensinar física é uma dádiva”. Notei então que minha mulher também ouvira o diálogo, olhei para ela e disse sorrindo: “Bem, pelo menos esse físico não é solteirão”. Ela não conseguiu controlar a gargalhada…

O trem não demorou e logo partiu, dias depois, conseguimos chegar ao nosso destino. Foi a melhor viajem da minha vida, não foi a nossa última e também não foi a última vez que ficamos presos no transporte público. Voltou a acontecer no Rio, em Londres, Montevidéu e Nova Iorque. Todavia em todas as vezes, passamos juntos mantendo o bom animo e dando risadas da mesma situação.

Confesso que somos azarados, mas sempre tivemos um relacionamento maduro. Entretanto foi preciso atravessar o planeta para entendermos que até mesmo os azarados podem ser felizes juntos, a vida é bela até pra quem foi privado de notar sua beleza. Eu cumpri minha promessa e vivi uma vida feliz… Pra quem se considera um azarado, até que tive a sorte de perceber que para vivermos bem, basta fazer todas as coisas com muito amor. Quando se tem amor, a lua de mel acontece todos os dias. E até os incidentes diários ficam inclusos no pacote sem deixar nenhuma marca ou ressentimento.

O Mundo continua girando…
Nossa felicidade também. ”

– Leonardo Veiga

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