O incrível natal de Nicolas Volkov

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Nicolas Volkov nasceu na Alemanha em 1985, entretanto no desejo de viverem próximos aos parentes, seus pais se mudaram para a Ucrânia, dois anos depois. Na véspera de natal de 2001, já com dezesseis anos, ele e a família se reuniram na casa dos avós na cidade de Kiev, onde também morava, para juntos comemorarem o nascimento de Jesus Cristo. Nicolas estava ansioso para o momento de entrega dos presentes, na verdade, era tudo que ele realmente esperava. No decorrer do dia, das semanas anteriores e dos meses passados, o rapaz não falava de outra coisa a não ser o seu próprio presente. Ele queria um Playstation, console de ponta para a época. E mais do que pedido aos familiares, ele já havia feito promessas colocando em jogo até a própria alma! Dizendo que seria tão santo quanto qualquer papa, caso ganhasse o videogame. Contudo sua alegria foi bem mais do que passageira, Nicolas ganhou presentes simples naquela noite; Logo após o jantar, seus avós lhe presentearam com um livro, seus tios, com um rádio. Já os seus pais, destruíram todas as expectativas do rapaz ao tirarem dos pés da arvore de natal, um embrulho, contendo um casaco de lã.

 

Até que era um casaco bom, bem caro e peça exclusiva do inverno local. Porém era de se esperar que Nicolas ficasse nervoso, ele discutiu com o pai, brigou com os tios, quebrou a arvore de natal e saiu para a rua. Nervoso, o garoto encarou o clima frio como se estivesse numa praia caribenha. Caminhou sem rumo pela cidade, até passar próximo a um parque local. O lugar havia sido fechado há anos, Nicolas parou e ficou observando a velha roda gigante, sua decepção foi, aos poucos, falando mais baixo nos ouvidos e então as lágrimas começaram a descer. Depois de um bom tempo por ali, o garoto achou que estava só e relaxou preso a própria sensação de solidão, até que uma voz repentina apareceu e lhe assustou:

Camarada, devo confessar. É triste vê-la ali, que parada sem vida! Logo nessa época do ano… Você não tem ideia de quantos sorrisos já rodaram naquilo…

Nicolas tomou um susto, olhou pra trás e forçou a vista; notou então, que do outro lado da rua, bem acima de uma bola de neve, havia um sujeito qualquer, vestido como um mendigo.

Oi! Prazer em conhecê-lo! Na minha época, nos apresentávamos às pessoas.

Olá… – Nicolas respondeu meio sem graça. Ele não tinha medo, na verdade, com a raiva que transbordava dentro de si, nem mesmo cem cópias daquele velho seriam capazes de para-lo.

Qual é o seu nome?

Nicolas.

O que houve meu filho? Por que está chorando? Você não deveria estar em casa, com a sua família?

Ah… Foda-se eles! – Respondeu de imediato.

Entendi, entendi… Então tá bom, né.

“Tá bom”? Cara, você é um péssimo conselheiro…

Não. Na verdade, só não gosto de dar bola pra quem se faz de vítima.

O que? Como é? – Nicolas exaltou o tom da voz…

Calma meu rapaz, venha cá. – O velho colocou a mão por trás do próprio corpo e enquanto Nicolas imaginava uma arma ou algo do tipo, ele simplesmente puxou um copo de café. Um copo plástico, estilo expresso, pra viagem.

Aproxime-se… Anda! É só um café, não é uma faca ou algo do tipo.

Nicolas então decidiu se aproximar, contudo fez questão de preservar certa distancia. Ele manteve-se de pé, com as mãos nos bolsos da calça, observando o velho senhor. O homem percebeu sua desconfiança e então prosseguiu:

Olha garoto, não sou um bandido, ok? Esse lugar é importante pra mim.

Aé?

Sim. Deixe-me lhe contar uma história:

Lá vem…

Calma cara, relaxa. E preste a atenção! Você não deve conhecer, mas existe uma lenda nessa cidade. Uma lenda envolvendo esse parque, que se encaixa perfeitamente ao espirito dessa noite: Houve um ano, logo após a guerra, onde as pessoas já não faziam tanta questão do bem estar uma das outras…

Eu quero é novidades – Interrompeu Nicolas.

O velho então sorriu;

– Ainda Não acabei, rapaz… Pois bem, contam a história de um bom senhor que aproveitou a essência e o clima do Natal para fazer um discurso a população, antes da ceia que selava a grande noite. Esse parque ainda não existia, todo este terreno era dividido em duas partes: de um lado havia uma famosa Igreja, com um jardim cheio de flores ao redor. Do outro, uma mansão abandonada. Muitas famílias vinham para a igreja durante a véspera de Natal com o desejo de reencontrar velhos amigos e confraternizar até a hora da ceia. Todavia, do outro lado da rua, muitos pobres e até mesmo mendigos se reuniam. Eles aguardavam e juntos suportavam o frio, até que o momento da ceia passasse levando as famílias de volta para suas respectivas casas. A galera então atravessava a rua e invadia a igreja, eles catavam os restos de tudo que sobrou e comemoravam o natal entre si…

Mas essa noite foi diferente: um homem desconhecido até então, aproveitou a oportunidade de ter boa parte da cidade por aqui e decidiu falar. Ele não tinha nome, não tinha profissão, não tinha nada. Porém, precisou apenas de um pouco de sabedoria e um coração puro para tocar a alma de todos os presentes realizando um discurso de quase duas horas. Fazendo com que, no dia seguinte, milhares e milhares deixassem suas casas a fim de presentear e aconchegar muitas crianças moradoras de rua. Foi um Natal memorável, marcou a identidade da nossa Ucrânia.

Sabe garoto, o Mundo sempre compartilhou essa visão de que somos um povo tão frio e, francamente, até que isso é verdade. Só que naquela vez, por um momento, demonstramos que também possuímos sentimentos e que, com as palavras certas, eles podem ser ativados a favor de um mundo melhor.

Nicolas ficou surpreso, mas o tempo como ouvinte o forçou a cruzar os braços, rapidamente seu corpo começou a sentir o efeito do frio…

Bem, é uma linda história. – Ele respondeu ainda com seriedade.

Obrigado, garoto. Muito brigado… Mas venha! Sente-se ao meu lado. Não morra de frio ai.

 – É… Acho melhor não.

Por quê?

 – O senhor está sentado na neve! Aliás, numa bola enorme de neve. Isso deve estar congelando seu traseiro… Eu estou bem, prefiro continuar de pé, estou satisfeito com o calor do meu corpo.

 – Hahaha! Seu individualista.

Eu não sou individualista. Só não quero sentar ao lado de um desconhecido. E você não irá me convencer com essa história clichê.

 – Olha, sem problemas guri, entendo perfeitamente… Ah droga – O velho deixou o copo de café cair sobre as calças.

 – Mas que Diabos! – Gritou o rapaz.

Deixe-me ajudá-lo…

            – Oh! Não, Eu estou bem, estou bem… Não precisa tocar em mim. Continue ai, como está. Já que pra você está tão bom.

            – Ok… Sendo assim, beleza. – Nicolas virou o rosto.

Você ainda não respondeu minha pergunta

Qual?

Por que você está aqui e não em casa, com a família?

Acabei me estressando com eles, pedi uma “coisa” o ano inteiro e ganhei isso! A porra de um casaco que nada tem a ver comigo. – Disse Nicolas, mostrando o casaco.

Ah, sim, entendo… E o que você deu a eles?

Eu?

Sim.

Bem… Nada.

Nem um: “obrigado”?

Não, nada! Não me venha com esse sentimentalismo! Eu sempre recebi presentes, nunca precisei comprar para eles, isso não é desculpa.

Não foi o que tentei dizer.

Então o que tentou dizer?

Ah! Esqueça, guri.

O velho então se levantou e se sacudiu, limpou a mancha de café no gelo e retornou ao assento. Nicolas então, indagou:

Mas, diga-me: Quando foi que aconteceu esse evento?

Que evento?

Esse! Do coroa que animou a galera inteira e fez com que todos se tornassem filantrópicos do dia pra noite.

Oh! Sim. Ah… Tem tempo! 1917, 1918… Por aí. Não tenho mais o jornal daquela época.

Entendo. Interessante, vou pesquisar na Internet.

Não, você não vai achar. Não foi muito divulgado.

Ué? Como um evento desse tamanho não é divulgado?

Guri. As coisas boas desse mundo são rapidamente esquecidas. E ninguém faz questão de relembra-las, as pessoas tocam as memórias com a barriga até que a própria história enterre tudo.

Verdade… – O garoto então cedeu e sentou-se ao lado do velho.

Então como você soube disso tudo?

Bem, é porque Eu estava lá!

Que? Tá de sacanagem? Você é imortal? É um demônio ou algo assim?

Hahahaha! Você é engraçado rapaz. Não! Não sou um demônio… Pelo menos, Eu não quis ir para o outro lado da força.

O que? Como assim, maluco? De que força está falando?

Olha… Você faz muitas perguntas. – O velho disse, já se levantando.

Não seja distraído. Não perca a essência dessa conversa, não perca o significado inicial da história que lhe contei. Guri, a vida irá tentar lhe derrubar várias vezes, vai ferir suas expectativas, vai te chatear, vai te magoar, mas não deixe que essas coisas dominem seu coração. Não quando se tem a capacidade de fazer diferente. Aquelas pessoas foram motivadas a fazerem o que nem elas mesmas sabiam que eram capazes. O destino às vezes é tão cruel que nos faz esquecer das nossas próprias capacidades. Depois de muito tempo em guerra, os cidadãos daqui se esqueceram de que ainda tinham um coração e por isso se esqueceram de amar o próximo, você já odeia o planeta por uma simples decepção, já que não quer o casaco, pouco importa. O sentido das coisas não está no presente. E se estiver para você, então faça questão de ser melhor que seus pais – dê o casaco para alguém que não só o deseje tanto quanto você deseja o videogame, como também precise dele.

Bem… Eu realmente não sei o que dizer.

Não diga, só faça! – O velho foi andando em direção a tal roda gigante.

Espera, logo agora que Eu sentei ao seu lado, você já vai? Ou melhor: Pra aonde você vai?

Buscar mais café… Hahaha! Meu jovem, independente do que decida hoje, como as pessoas do passado, você também irá se esquecer. O mundo irá esquecer, a história irá apaga-lo caso faça uma boa ação, até você irá se lembrar dessa conversa pelas minhas loucuras e não pelos meus conselhos. A bondade no planeta é tão temporária quanto um floco de neve no deserto. Mas não importa, o poder que ira despertar em seu coração, não seria saciado por presente algum…

E… E se não for assim? E se Eu mudar e for bom pelo resto da minha vida? – Ele gritou! Porém o velho não respondeu.

Em questão de minutos, o homem sumiu na neblina. O garoto continuou por lá e ficou sentado na neve por um tempo, sentia-se perdido nos próprios pensamentos, segundo após segundo, enquanto o frio tomava tudo, até mesmo os feixes de luzes que emitidos nos postes do local. Quando finalmente resolveu caminhar, passou por uma praça vazia. Viu que, ao redor, todas as casas estavam cheias, as janelas emitiam penumbras e imagens rápidas, mesmo sem saber ao certo o que ocorria dentro das casas, era nítida a áurea de felicidade que emanava de cada uma delas, porém lá fora e sozinho, tudo ainda era muito escuro e triste.

Ao passar da praça principal de Kiev, Nicolas decidiu visitar seus amigos que estavam reunidos num clube local. Ele tomou um atalho por trás de um conjunto abandonado, estava acostumado a pegar atalhos pelos becos. Enquanto trilhava por um deles, ouviu ao fundo um choro tomado por sofrimento. Choro que rasgava aquela noite feliz, como agulhas finas, quase incolores, furando balões de festas. Era um contraste quase irreal para uma noite da qual todos aparentam felicidade. Ele olhou ao redor e viu, abaixo de uma marquise, dois garotos. Um deles aparentava ter a mesma idade que ele, outro, um pouco menor, era o dono do pranto. Nicolas se aproximou e ajoelhou-se, percebeu que o garoto maior estava sem blusa, abraçado ao menor, que estava com um velho casaco batido, certamente doado pelo maior, para que suportasse o frio. Aquela cena tocou seu coração de uma maneira inexplicável. Vê-los ali, abraçados para sobreviver, o fez pensar do quanto tinha sorte, pois nunca passou por situação semelhante. sequer imaginava tamanho sofrimento.

Fez então, o que o momento lhe permitia fazer – entregou o presente dado por seus pais ao garoto, esticou-se e deixou próximo ao braço do mais velho. Logo saiu, sem dizer uma só palavra e retornou ao seu trajeto habitual, não fez rodeio algum, enquanto se afastava, ouviu apenas o barulho do pacote sendo rasgado, quando já estava bem longe, matou a curiosidade olhando rapidamente para trás. Viu o garoto de rua, antes com o peito aparente, usando o casaco doado. Nicolas assistiu o menino se ajoelhando e juntando as mãos, fez um nítido sinal de agradecimento a Deus, em seguida, já com um semblante de alívio, sorriu para Nicolas. Ele nunca mais esquecera aquele sorriso.

Quando chegou ao clube local, contou aos amigos o que fizera. Falou sobre um velho bêbado que disse coisas idiotas, fazendo com que todos se interessassem e dessem risadas do caso. Num ato de distração, ele encheu a mochila de petiscos e voltou ao beco onde os garotos estavam, mas não encontrou ninguém. Depois de pouco caminhar, foi ao parque onde conheceu o velho, mas também não o encontrou.

O rapaz então voltou pra casa, pediu desculpas aos familiares, abraçou seus pais, consertou a arvore de natal e foi para o quarto. Passou a noite inteira refletindo em tudo aquilo que havia vivenciado. Na manhã seguinte, Nicolas ganhou seu videogame, entretanto ele já não mais dava tanto crédito. Sua vida havia mudado.

Os anos se passaram e Nicolas se tornou um escritor de sucesso. Agora, já com trinta anos, ele dedica quase todo seu tempo num trabalho paralelo, sendo líder de campanhas e projetos católicos para abrigar moradores de rua por toda Europa e Ásia. Na véspera de natal do ano de 2015, ele foi convidado a um famoso programa de TV na Espanha. Após uma seção de homenagens, foi lhe perguntado o que pensava sobre o significado do Natal; inicialmente ele sorri, prontamente responde que, para ele, o Natal é como o olhar satisfeito de uma criança, após saciarmos suas necessidades. “Foi o mesmo olhar que nosso Senhor Jesus deu a sua mãe Maria, após se satisfazer com a primeira amamentação”, concluiu.

A repórter se emociona, por conseguinte, pergunta:

Como você se arrisca a conjecturar o sorriso de Cristo?

Ele então, responde:

Arrisco-me, pois o olhar de satisfação de uma criança é universal. Quando estão felizes, quando o coração é de fato saciado, elas nos recompensam com um semblante único e inocente do qual não possui preço.

Enquanto dizia isso, uma foto surgiu no visor do estúdio. Uma foto dele, com um sorriso no rosto, tirada há quinze anos na manhã de Natal logo após acordar de toda aquela experiência.

Ele sorriu, agradeceu a todos e simplesmente não conseguiu continuar com a entrevista. Emocionado, desejou apenas um feliz natal e foi embora.

 

 

Fim.

 

Feliz natal a todos!

 

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