Conservando o que deveria esquecer

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Pecado é provocar desejo e depois renunciar – Música: Soul Parsifal, Legião Urbana

 

07 de dezembro de 1998 – Cascavel, Paraná; Brasil.

Hélio sabia que se não fizesse muita coisa acabaria perdendo a mulher amada. Ou melhor, a garota amada. Patrícia ainda é nova, tem apenas 18 anos. Ele, já com 26, tinha noção de que sentimentos não são eternos, diferente do que diz a crença popular. Acreditava que o verdadeiro amor tem prazo de validade, uma vez retribuído ele é fortificado a cada palavra, momento e encontro vivido. Sendo necessário, de tempos em tempos, renovar tamanho sentimento, ao contrário ele é completamente apagado, como chamas de fogo em ramos secos, ou como os próprios ramos que, outrora, eram verdes e vívidos.

Só que Patrícia estava na contramão de tudo isso, talvez porque faltara um pouco mais de aproximação e atitudes da parte de Hélio, talvez porque não estivesse realmente afim, ou quem sabe porque não se sentia totalmente segura com relação a novas aventuras. Geralmente as mulheres sabem diferenciar casos que não trarão muitas coisas positivas e edificantes, de casos que realmente podem vingar. Por carência ou definição instintiva, é mais simples ceder ao primeiro tipo de relacionamento, pois neles o coração não está envolvido e onde o coração não se envolve, elas não se machucam. Hélio por sorte (ou muito azar) estava classificado no segundo tipo de caso, apesar de possuir todos os predicados necessários e de conseguir captar a tão disputada atenção de Patrícia, ele foi inicialmente descartado por ela, ou pelo menos adiado para um momento futuro em que estivesse a fim de ceder, ou quem sabe pra quando o destino fizesse a mágica toda de uni-los sozinho.

E… Provavelmente ela estivesse certa; as coisas se desenvolveram com certa rapidez, mas sempre houve sinceridade. Tanta que Hélio chega a traduzir toda história como olhar de perfeição – ambos foram apresentados por um amigo em comum: Thiago, numa quinta a tarde de um feriado qualquer no meio do ano. Hélio estava na praça junto a turma da escola e enquanto Thiago tocava violão, ele cantarola “Soul Parsifal“, da banda Legião Urbana. Patrícia era perita em Rock’n Roll, além de ser extremamente culta e inteligente, dava toda ênfase ao desenvolvimento nacional; amava o modernismo romântico, grupos punks, feminismo, politicas de esquerda e movimentos sociais revolucionários. Em longo prazo, pretendia-se formar em história da arte na Europa, em curto prazo tentava fazer a cabeça da mãe para comprar um pôster gigante de quarto, justamente um pôster do Renato Russo, personalidade da qual admirava, única voz capaz de derretê-la. Voz tal, que estava sendo completamente desmembrada por um anônimo qualquer sentado numa mesa de praça publica, os acordes não muito definidos por Thiago eram até perdoáveis, afinal até a banda original era imperfeita, mas a voz de Hélio era fraca, logo solicitava seu julgamento. As calças rasgadas e sandálias que lembravam os anos cinquenta também não ajudavam muito o bom rapaz. Depois de uma crítica educada e conversas que iam desde gostos culinários, passando por preferências do cinema e livros favoritos, eles finalmente perceberam que a convivência era divertida. De um jeito um tanto quanto anormal possivelmente, contudo divertida e para ela isso bastava. O suficiente para fazê-los deixar o resto da galera pra sair caminhando pelo bairro só pra jogar conversa fora. Sem rumo, andaram de sorveteria em sorveteria, cantando, conversando ou expondo vantagens. Patrícia contou que planejava viajar em Dezembro e que talvez não voltasse, disse que por isso não se apegava tanto as pessoas que estavam ao redor, falou do futuro e do quanto estudava pra ser alguém. Hélio por outro lado estava encantado, não ouvia nada do que a garota dizia, apenas consentia e falava alguma asneira aleatória, só para vê-la sorrir.

No início da noite, ele a levou até o portão de casa, disse que estava feliz por conhecê-la, disse também que não era da cidade, contudo voltaria a visitar a avó na semana seguinte, uma deixa para encontrar a garota. Patrícia sorriu, consentiu, adorou e entrou logo em seguida. Toda sintonia durou cerca de seis meses, até que Hélio finalmente confessou o que sentia. Depois de muito insistir, finalmente conseguiu levar a garota ao parque da cidade. Foi uma noite bacana, com direito a todo tipo de diversão, desde a roda gigante velha que travou por quinze minutos (com os dois presos na mais alta cabine), até a cara pálida de Hélio logo no primeiro movimento ríspido da barca. Patrícia era uma garota centrada, direta e objetiva. Hélio era um pouco mais lento, quer dizer: bem mais lento, seu processamento só evoluía quando estava comendo a boa e velha comida caseira da avó. Ele também era bem gentil, leal e carinhoso. Essas características despertavam nela, sentimentos que já haviam sido destruídos há tempos, em outros carnavais das quais ela venderia tudo pra esquecer. Eles se curtiam como sempre – na barraca de tiro ao alvo, pra variar, foi Patrícia que ganhou o urso de pelúcia que ela mesma queria, além de uma luva de baseball da qual Hélio ficou encantado. Ele era espontâneo e corajoso, contudo em alguns momentos era necessário que ela tomasse as rédeas e francamente, ela gostava. Não se importava nem um pouco. Depois do parque, ele de costume a levou para casa e antes de deixa-la entrar, segurou em suas mãos e resumiu o fim da noite numa breve troca de olhares. A lua era refletida em sua retina, Patrícia esperava pelas palavras, todavia não pensava em nenhuma resposta. Possivelmente porque dessa vez, queria acreditar que seria desnecessário sem grossa, de que, diferente de todos os outros, ele tinha o necessário para fazê-la ceder.

– Patrícia…

– Sim!

O silêncio voltou novamente. Hélio não estava pensando –, já sabia o que falar! Porém não conseguia organizar os pensamentos. Só quem já permaneceu calado e sem assunto ao lado da pessoa amada, sabe o quanto cada segundo dói, assemelhando a fixidez do tempo como uma eternidade macabra. Hélio engoliu saliva e finalmente começou:

– Existem muitas coisas que Eu posso dizer agora, só que nenhuma delas resumirá exatamente o que sinto. Talvez porque o que sinta esteja incompleto… Desde o dia que te vi na praça, meu coração bateu mais forte e a cada encontro, ele acelera, só pra me provocar e fazer entender que, aquilo que sinto por você vai se tornando cada vez maior a cada encontro.

– Cada vez maior é?

– Sim…

– Tem algum teor sexual no que está tentando me dizer cara?

– Han? Ah! Não, não!

Ambos riram, ela se distraiu, ele ficou ainda mais sem graça.

– Tentarei ser mais claro;

– Hélio… Espera.

– Deixe-me terminar, por favor, esperei muito pra dizer isso.

– Ok.

– A verdade, Patrícia é que Eu te amo. Talvez como nunca tenha amado ninguém em toda minha vida. Não é o que quero, que escolho ou determino, é o que sinto por você, Patrícia e o que sinto me faz gostar de determinar, escolher e querer. E… Eu quero você, sua testuda! Só pra mim. Quero ama-la pelo resto das nossas vidas idiotas, pois ao seu lado, até mesmo esse mundo tão chato fica maneiro.

– “Maneiro” é? Otimo! Isso soa de uma maneira tão exclusiva, baby – Ela não escondia o sorriso.

– Olha Hélio…

– Calma, ainda não acabei: hoje poderia ser só mais um dos milhares de dias malucos que dividimos, só que dessa vez não desejo assim. Quero que seja especial, ou ainda mais que especial. Quero dormir sabendo que sou todo seu e que você é toda minha. Patrícia… Você aceita namorar comigo?

Não dá pra negar; houve gagueira, suor, nervosismo, passos esquisitos e involuntárias coçadas de cabelo. Mas finalmente “saiu”, tudo aquilo que deixava o coração do rapaz tão cheio. Bastava agora a resposta de Patrícia, a conclusão, laço final capaz de inaugurar um novo começo. Ela estava emocionada, ficou completamente sem chão, apesar de desconfiar que existisse certa química e de bancar aquela que suporta “todas as coisas”, este momento em si balanceou o tipo de coração que estava trancado para o mundo masculino. Seja por seus traumas ou pelas convicções e ideologias pessoais. Ela bufou e finalmente respondeu:

– Hélio. Eu realmente não sei bem o que dizer.

– Apenas diga sim! – O rapaz estava eufórico.

Ela não pensou e talvez esse tenha sido seu pior pecado:

– Olha… A minha resposta é não. Infelizmente.

Irônico! Após aquela resposta, ele era incapaz de sentir até o mais sutil dos ventos. Parece até que aquele silêncio que envergonha os apaixonados resolveu desaparecer. Pelo visto, o poder feminino influencia até o clima.

– Hélio, Eu adoro você. Porém não posso me relacionar com ninguém, quer dizer, não mais.

– Do que está falando?

– Você lembra quando disse que pensava em viajar? E que por isso não desejava me aproximar das pessoas? Então… Irei para Lisboa! Meu pai enviou as passagens ontem. Foi por isso que decidi sair com você, ficarei cinco anos lá, queria me despedir. Mas a noite foi tão boa que sequer pensei em tocar no assunto…

– Eu, Eu…

– Você é um cara legal, na verdade, você foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos meses. Fez com que toda minha vida valesse a pena. Só que, infelizmente, é tarde demais. – Dizendo isso, uma lágrima caiu, ela soltou as palmas dele, que ficaram lá, pausadas no tempo e entrou em casa.

Se o amor realmente não for eterno, seria possível esquece-lo? O garoto pagaria bem por quem obtivesse tal resposta. Horas depois, já em casa e deitado no quarto, ele ficou refletindo sobre tudo que ocorrera. Ainda triste, não quis comer, deixando seus avós desconfiados com relação ao seu bem estar, também não quis tomar banho ou pensar no dia seguinte. Ficar ali já era suficiente, tudo que bastava. De consolo apenas a nova luva de baseball que ganhou da amada na mesma noite. Depois de algumas horas, uma neblina fria entrou no quarto através da janela escancarada. Hélio sentiu-se tão gelado quanto à atmosfera que o envolvia e, finalmente, adormeceu. O destino carregou a dor, temporariamente…

Não demorou muito até sentir um golpe de calor envolvendo seus braços, uma presença diferente no canto direito da cama. Ele abriu os olhos, por obrigação e não por vontade. O que viu foi reanimador e completamente abrupto: Patrícia estava lá, sentada em sua cama. Ele não conseguia se mover, sequer lembrava-se de respirar. Não esperava por aquilo, aliás, ele não esperava por mais nada.

– Xiiiu… – Ela sorriu com o dedo indicador na boca, com aquele sinal típico de silêncio. Em seguida o beijou.

– Mas Patrícia… Como assim?

– Hélio, seu magrelo babaca! Eu não sei se conseguirei viver sem você, considere essa noite como prova do quanto pra mim é impossível.

– Ual! Mas, é… Calma ai! Como você entrou aqui?

– Com uma janela daquelas, cara? Não sei como você continua vivo… Agora cala a boca! Pelo menos uma vez na vida, tente fazer as coisas sem questionar nada. De chata, Eu já basto.

Eles gargalharam, num tom disfarçado, porém percebível. Não o suficiente, é claro para haver flagra de um casal de idosos. Patrícia então deitou ao lado de Hélio, ele acariciou seu rosto, beijou sua boca, seu pescoço, seu corpo… E o desejo completou todo o resto.

Ao amanhecer, ele sentia-se num estado tênue entre o êxtase e a felicidade plena. Entretanto, quando acordou, viu que ela já não estava mais lá. Pra ser sincero, nem mesmo sabia se ela realmente tinha vindo, ou se tudo não passou de um sonho. Somente uma coisa era certa: a ausência dela significava que pelos próximos cinco anos, não encontraria sua amada. Nada que cartas ou viagens programadas não resolvam claro, não obstante o que realmente importava era o seu amor. Seria possível fazê-lo sobreviver à saudade? Como ele faria para renova-lo ou fortifica-lo com o tempo? Ele não sabia, francamente, quase ninguém saberia caso estivesse no mesmo estado. Hélio saiu da cama e caminhou até a janela, perdeu uma parcela do dia perdido dentro de si mesmo; se a melhor noite da sua vida foi real ou não, ele não saberia dizer, só que de uma coisa tinha certeza: diferente de tudo que imaginou, seu amor de fato estava fortalecido e possivelmente, seria eterno.

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