Nas asas de um novo mundo

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Hoje é um daqueles dias que por si só, animam tudo: O abraço singelo da natureza vem carregado no poder da aurora matinal. O dia se inicia com todo seu glamour, o sol resplandece em todas as almas deprimidas que se esconderam do mundo após as pancadas intermináveis de chuva. Detalhe crítico: Eu sou uma delas. O ar, o gosto, o vento lá fora me relembra de tamanha verdade: A natureza é linda! Deus já havia montado o espetáculo no quinto dia, antes dos primeiros passos do homem, sendo este último apenas parte da plateia. Não há motivos para viver presa em tantos lutos, chega de rever conceitos, de fuxicar o passado.

Daqui, observo o jardim pela janela – pássaros, insetos, plantas e todo aquele “ar” que embeleza o horizonte deslizando incontáveis levas das folhas de amendoeiras. Já as flores que você plantou ainda não brotaram, talvez aguardem a sua volta; compartilham comigo o anseio da sua presença… O meu café está muito doce, o vinil arranhado e as páginas do livro manchadas. Oras droga! Parece que o destino anda me forçando a lembrar de você. Uma nostalgia anormal, sensação incomum, fruto da minha consciência tão inconstante quanto o sabor de passas ao rum, fruto do seu sorriso encantador, ou do seu corpo nu… Enfim: Não tem jeito. Para mim resta apenas uma saída, hoje é dia de louvar a saudade, de resgatar toda nossa essência -, troca-se o perfume, o café, o disco. Hoje a coletânea tem nome: Blues da ausência.

As malas estão prontas e a casa quase vazia. Há quadros na parede, cartas por todo canto – tudo aquilo que sequer quis revirar. Perco meus últimos minutos observando nossas fotos, em seguida lanço suas roupas fora. Presentes, contratos, objetos e lembranças seguirão o mesmo destino. Da sala só ficou o velho cheiro de lenha e um casulo anormal grudado na lareira. Às vezes sinto sua presença, incorporada não só na falta, mas também nas sutilezas diárias. Meu “hoje” definiu esse momento, fixação que carregarei no peito por muito tempo. Só que já não quero mais sentir! E enquanto a cocaína tenta forçar a omissão das dores, novas cenas reaparecem em pedaços, surreais e incolores. De metro em metro surgem novas telas e memórias em filmes dividindo o mesmo enredo, com os mesmos personagens. O passado parece ser meu único futuro, com uma leve diferença: no meu futuro não existe mais você.

Lanço-me ao chão do quarto, ainda observando o velho retrato… Que mal lhe fiz? Por que me abandonou assim? Já não sei mais! E também: Pouco importa. Faço do recomeço, atitudes minhas. Passeio por cada cômodo desenhando os centímetros de gasolina. Tateio, rastejo, reviro e enterro. Não levarei mais nada, o que havia de nós dois morrerá com a casa. Formo um rastro do galão a entrada principal. Jogo as memórias na lareira deixando o inocente casulo cair no chão, caminho até a porta como uma grã-mestre do mundo das tumbas a caminho da ressurreição.

Observo o fósforo caindo como numa cena de musical. Como se, por trás do teatro, alguém plantasse as chamas nas cortinas. Peço perdão a Deus, todavia não sirvo para ser mais uma na plateia. Assisto da rua, as lembranças indo embora, toda uma história transformada em fumaças. No corpo apenas um velho jeans, no coração: enorme sensação de alívio. Na alma um velho salmo bíblico que afirma o quanto somos pó, do quanto tudo é vaidade e vício.

Irônico e tentador… Felizmente, acabou o amor. Dessa vez, as flores não mais florirão. Não existirão mais encontros, aconchegos, beijos, aperto de mãos. O que passou ficou, não importa mais. Como no casulo que ficou para trás, surge uma nova esperança bem mais promissora do que as cartas na minha gaveta. Observo o sol e estendo as mãos, eis agora pousada em meus dedos: uma linda borboleta negra.

Hoje é um novo dia, sim disso Eu sei.

Amanhã será uma nova vida, tentarei mais uma vez.

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