Genética melancólica

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Inicialmente parecerá um tanto estranho o que irei dizer, mas a verdade é que muitos poetas do passado enxergaram beleza na tristeza ou no status da possibilidade de ficar triste. Tornaram a vida pessimista numa sequência de idades românticas. Isso é fato visível e declarável nas melhores obras existentes até hoje: De Salomão a Sêneca, de Sêneca a Schopenhauer, de Schopenhauer a Dostoiévski, de Dostoiévski a Fernando Pessoa e de Pessoa aos músicos lendários do século passado. São alguns dos diversos escritores sócios do “clube eterno do pessimismo”  e que permanecem vivos no coração de qualquer cidadão atual refém da cultura.

Acredito que isso não faça parte de uma identidade milenar, algo que certo pioneiro sofredor achou bonito e adotou fazendo com que, por efeito, todos os outros caminhassem no mesmo ciclo, cada qual adaptado a sua época… Não! Não foi bem assim, ninguém adota a tristeza. O que as pessoas não entendem é que cabe ao escritor o dever de absolver a realidade que é, em sua totalidade, imperceptível. E transmiti-la de maneira simples, objetiva e direta ao máximo de corações possíveis. De tal maneira que os leitores fiquem admirados e surpresos ao compreenderem informações que, na verdade, sempre estiveram ao redor, mas passaram de forma despercebida até então. Ou melhor: quando ficam surpresos com a nossa capacidade de descrever exatamente o que pensam/vivem/sentem se, eles mesmos, não sabem descrever. É um dom e tanto. Raro, bonito, especial. Todavia ele causa consequências, consequências dolorosas.

A principal consequência é o ceticismo, seguido do desânimo -, Enquanto boa parte das pessoas estão distraídas com times de futebol, novas marca de celulares e top celebridades anuais, nós vislumbramos o Mundo da maneira que ele é e ele não possui uma visão tão linda assim. Quando enxergamos tornamos realidade e o que tornamos realidade nós sentimos na pele, o que sentimos na pele vivenciamos e o que vivenciamos é puro sofrimento. De todos os lados, para todos os cantos. Sendo a bondade e as coisas belas da vida, simples lampejos de um mundo caótico. Como trovões em dias de chuva: inesperados, rápidos, barulhentos, anormais. Sobretudo: brilhantes. Foi o que definiu o próprio Arthur Schopenhauer (citado na lista acima), ele disse: “Esse é o pior dos mundos possíveis! Com todas as suas variantes e diferenças, com toda a sua multiplicidade, durante o seu desenvolvimento, a realidade íntima do mundo e do homem é sempre a mesma vontade onipotente; a própria história é sempre a repetição do mesmo acontecimento sob aparências diversas: a vontade de viver determinado o sofrimento como condição humana: viver é sofrer”.

Vivo o “Sofrimento” de Arthur, a “vaidade” de Salomão. Vivo no “Museu de grandes novidades de Cazuza”, vivo o “Desassossego” de Fernando Pessoa… E como defendi: visar à beleza na tristeza não é um ciclo vicioso que define o comportamento dos escritores. É mais do que isso, é meramente a graça de permear na mais pura realidade latente, mergulhar nas camadas mais profundas de sentimentos ignorados e fatos apáticos. Como escritores, tocamos almas, seja pela razão, seja pela emoção. O que sentimos e o que acreditamos, sempre será indiferente frente ao talento. Não escolhemos, simplesmente somos! Corações únicos que falam um idioma distinto de todos os outros, capazes até mesmo de conversar com a tristeza; tocar em seu rosto, limpar suas lágrimas e chama-la de bela…

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