Caro amigo confidente

Caro amigo,
Ainda hoje lembrei-me de você, ontem não me lembrei porque ontem ainda erámos amigos.
Sinto sua falta, mas sei que nada será como antes. Você conhecia todos os meus planos, tudo aquilo que eu era você sabia e desenhava com os dedos cada uma de minhas falhas. Era a minha carta de culpa perante o tribunal, meu ego e meu mundo.
Poderia mergulhar em você  imaginando-me no oceano, mas eu sabia que eu me afogaria a cada vez que olhasse para sua face.
Ainda ontem erámos amigos, mas esse ontem meio distante já fez alguns anos, quem mudou primeiro: Eu ou você?
Ou tudo se fez ou desfez depois que seus olhos começaram a me acusar?
Quantos foram os nossos passos em falso, as promessas que não foram cumpridas e que foram justificadas com a outra promessa não cumprida de cumprir a promessa anterior?
Planejávamos fugas, mas não sabíamos esconder do nosso próprio instinto destruidor. Quanto tempo faz desde da última vez em que olhei para você e o chamei “amigo”? Quanto tempo faz desde que a fumaça negra subiu ao céu? E, enquanto você chorava pela morte de tudo, eu sorria por ter nascido.
Quanto tempo faz desde de que eu te disse “Todos nós vivemos sob o mesmo céu, mas ninguém tem o mesmo horizonte”, nossa frase tirada de um papel de chá escrita com caneta azul na sua face branca.
Lembro-me de tudo, velho amigo, especialmente hoje o sinto aqui, dentro de mim. Como se todas as vezes que o céu se fechar, que a chuva molhar alguma terra ou alguma árvore, eu sentirei esse cheiro e me lembrarei de você.
Ontem, ainda podia contar com você e como uma amiga eu chorava em sua frente.
Você me deu seu abraço, tão vazio que mais parecia ser parte da fantasia, me deu seu olhar distante e alheio a nós dois.
Podíamos olhar da janela e sonhar juntos com o futuro que nos separaria e como dois irmãos criávamos planos em secreto.
Andávamos juntos, mas para que afinal?
Nossos medos estavam escondidos atrás do simples fato de sermos dois e não um.
Queríamos lutar contra tudo, mas erámos fracos e emotivos demais então sempre perdemos juntos.
Fortes para resistir e frágeis demais para lutar.
Protegidos pelos nossos próprios instintos, vergonhosamente selvagens, que nos faziam arriscar, mas não vencer.
Estávamos de posse de todas as armas para fugir do caos, mas nos esquecemos de matar o nosso verdadeiro inimigo, nós mesmos, e todas as feridas físicas ou não, foram feitas com nossas próprias mãos, sempre dispostas a procurar um culpado.
Talvez isso esteja longo demais para sua letra que começa bonita e termina feia, talvez isso seja perfeito para mais uma aula de caligrafia juntos, sem sistema de acusação, sem tribunal, apenas para olharmos o reflexo dos nossos olhos no espelho e nos darmos conta de que, enfim tudo acabou.
Hora perfeita essa, hora do fim e nesse momento encontramos palavras perfeitas para dizermos a verdade.
Perdoe-me velho amigo, por não ter te trazido comigo, perdão por te deixar sozinho a deriva dos seus  sonhos loucos, mas entenda que precisei pensar em mim.
Perdoe-me por eu ter ido sem me despedi ou ao menos sorrir para você, mas aquele olhar era o máximo que eu tinha para oferecer.
Perdoa-me por não ter morrido, no dia em que você morreu.
Perdoa-me, mas eu dou graças por ter sobrevivido ilesa de tudo o que se passou conosco durante todos aqueles anos.
Passou, querido amigo, tudo passou, agora feche seus olhos, e durma do jeito que você ama pois está chovendo lá fora…

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