Belas e independentes

É tarde, tarde de sol. Mas não como qualquer outra, é uma data culturalmente consagrada e publicitariamente única: O calendário marca o dia dos namorados, ou seja, está estabelecida uma razão extra e suficiente para apimentar um pouco mais a sexta-feira que já tinha tudo para ser quente. E no embalo do dia, muitos casais decidiram se reunir após o trabalho numa famosa cafeteria no centro do Rio de Janeiro, a fim de papear e se preparar para a tão esperada noite daquele gostoso clima boêmio do inverno carioca.

As mesas foram antecipadamente divididas num modelo que foge do padrão rotineiro da casa, os garçons passeiam no salão demonstrando o máximo de educação possível, tomando todo cuidado do mundo para não desviar o olhar e se perder em meio a tantas moças comprometidas. O clima é marcado pelo som das diversas xícaras em movimento e bate papos lançados ao vento. Há toda aquela melação, grude, frases banais e idiotas de todos os modos e cores. Há também pessoas de todos os gostos e cortes de cabelo. Há casais padronizados em raças, credos, gostos, situações econômicas e sociais. O cheiro do cappuccino pode ser sentido da esquina, o aroma da paixão também.

Contudo para qualquer espectador esperto era possível captar, em meio aquela cena, a presença incomum de uma figura que, até um dia antes, seria considerada completamente normal. Todavia em meio aos casais e de todo clima gerado pelo amor e propagandas idiotas de marketing, ela passou a ser considerada o ser mais anormal de todo o planeta! Essa pessoa nada mais é do que uma simples garota solteira. Sozinha e despreocupada, ela ocupa a mesa cinco, com um livro de filosofia nas mãos e de costas para a janela. O perfil, certamente não engana: é jovem, atraente, bem vestida, educada e acima de tudo: linda. Próxima a tantos casais, ela parecia uma gota de tinta cinza em meio a mais colorida das aquarelas de Pablo Picasso. Seu jeito de ser parecia ter sido desenvolvido, programado e testado por uma entidade superior -, Ela suspende o menu até a direção do nariz, discorre as folhas nas quinas das belas unhas feitas e desenhadas, em seguida desce o olhar para fugir de toda atenção emitida no horizonte. Ela lê, sorri, escolhe, define e finalmente realiza o pedido. Todos os homens mesmo que de maneira involuntária, notam sua presença. Não por lasciva, mas sim porque de fato não havia como fugir de toda aquela boa vibração e presença de espírito. Muitos a desejavam, mas ninguém era capaz de chamar sua atenção e muito menos despertar algo capaz de ir além da sua própria definição de gosto pela beleza masculina.

Ela evidenciava felicidade, não parecia sequer notar que era a única garota desacompanhada quando comparada a todas as outras mesas. Sua aparente “ar” de inferioridade só enganava os tolos; a boa verdade é que se sentia, acima de tudo: livre. E é a total característica dos sujeitos livres estar longe de toda e qualquer relação direta, além de tocar suas próprias relações sem nenhum elo sentimental com acompanhantes do sexo oposto. Pessoas que traçaram previamente um modelo de vida que se estende desde a faculdade até a aposentadoria, esse modelo é repleto de planos que incluem viagens, dinheiro, bens, reconhecimento, tarefas e descontrações, porém não há acompanhantes, pelo menos não de longo prazo, muito menos fixos. Em suas vidas há espaço para tudo, menos para outras pessoas. Os sujeitos que tomaram essa decisão confundem os observadores, pois a relatividade não permite dizer, para todos eles, onde acaba o limite do que é e pode ser considerado bom e onde inicia a linha do que é e será eternamente triste.

Pausando um pouco o dia dos namorados passado e voltando a situação atual, sinto-me no dever de informar a vocês, leitores, que por hoje não pretendo discutir as consequências dessa decisão; da ideia de crescer, viver e morrer sozinho. Cada atitude tomada na vida carrega seus pontos positivos e negativos, o que desejo apresentar são as maneiras que temos atualmente para lidar com pessoas desse tipo. Eu não estava naquele café (Ah! como queria estar lá) e não conheço a tal garota, infelizmente. Mas como pensador absorvi sua descrição e como homem, sou obrigado a tentar encontrar uma brecha naquela construção exclusiva e quase palpável de personalidade. Afinal depois do azar de conhecer tantas garotas frias num ciclo continuo nos últimos anos, cheguei à conclusão de que o tipo de mulher que procurava estava se tornando cada vez mais raro e/ou talvez já pudesse ser considerado extinto. Não é determinismo nem a voz da decepção falando mais alto, não podemos mais fugir da verdade e a verdade é que a modernidade atualizou o perfil feminino, ou pelo menos aplicou um upgrade naquilo que nós (homens) entendemos do que é “ser mulher”.

Querendo ou não, cedo ou tarde, precisaremos engolir a ideia de que as mulheres estão ficando cada vez mais soltas, alterando suas concepções morais, desestabilizando suas construções sociais, criando novas maneiras de esculpir a vida. Seja se adaptando ao mundo cada vez mais hostil e perverso, seja aderindo ideologias femininas interculturais. Não importa! A verdade nua e crua é essa. Aquele tipo de garotinha pura e inteligente, que se esconde atrás do que a sociedade definiu como o correto, aquele tipo que omite a própria luxuria e sofre as consequências disso, que define o casamento e os futuros filhos como as coisas mais importantes a se fazer na vida, simplesmente acabaram! E provavelmente elas não voltarão mais a existir. O mundo é das independentes, das mulheres livres. Que definem seus próprios gostos, que controlam os próprios sentimentos com uma facilidade digna de novela, que estabelecem o crescimento pessoal dentro do próprio individualismo, que não correm atrás de homens, meramente escolhem quem querem e também determinam (por que não) o tempo que ficarão ao lado deles.

É o que há no “mercado”. Essas são as mulheres que o novo século tem pra oferecer: Pessoas tão frias quanto o monte Everest e ao mesmo tempo tão interessantes quanto um anjo caído. Mulheres inteligentes, lindas, indomáveis e tão cruéis quanto o ego permitir. Retornando ao dia dos namorados, isso é o que tem de bom naquela clássica cafeteria – a efígie da autonomia. E desse quadro não há como fugir… Ultimamente tenho observado a opinião pública e apesar de pessimista, discordo dos meus amigos do mesmo gênero quando afirmam que o crescimento da participação social das mulheres está transformando a mente e coração das nossas gurias em maquinas coletivas “anti-homens”, não é bem assim. Prefiro acreditar que padrão feminino foi atualizado: as melhores estão ainda mais difíceis e não existem mais milagres  ou “jeitinhos” para conquista-las, não há compra de dotes nem acordo com os pais – garotas independentes são conquistadas! Elas olham, querem e buscam apenas (disse: apenas) homens independentes, tão independentes quanto elas. Homens que compartilham uma visão do futuro que se enquadre no mesmo nível de loucura. Em outras palavras, sendo liberto da tirania de ideologias infantis, sendo simpático, inovador, único, diferente, criativo e principalmente especial o bastante para fazer com que ela, dentro de suas limitações, sinta-se a mulher mais especial do universo quando estiver acompanhada.

Isso geralmente é o bastante. O bastante para quebrar qualquer coração de gelo, para iniciar uma história de felicidade, para usufruir da sorte de ter nos braços alguém dedicada, inteligente e interessante e principalmente o bastante para diferencia-lo de simples espectadores invejosos de mesas de cafeterias. Seja diferenciado, especial, misterioso. Seja charmoso o bastante para convencê-la de que, talvez, dividir a mesa e uma boa conversa, valem a pena. Não se ganha as melhores sendo aquilo que elas imaginaram e sim sendo aquilo que elas nunca sonharam. O monte everest é mortal e extremamente difícil, todavia segundo os sortudos, conquista-lo é uma das maiores emoções da vida. Eu não duvido.

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