Um clique na tristeza

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13/10/2015 – Noite.

Júlia está em Cuiabá, olhando as fotos de casamento no Facebook. Ela se casou aos 18 anos de idade e por ora, sente-se completamente realizada. Marcos também está online, só que na Nigéria, publicando algumas fotos ao lado de amigos do grupamento médico. Sua equipe profissional foi relacionada para uma breve missão de paz internacional. Marcos tem 45 anos e ainda não se casou.

Até que, por obra do acaso, Júlia encontra o perfil de Marcos e Marcos encontra o perfil de Júlia. Ela sente inveja da vida dele, de toda liberdade que um homem solteiro possui, da maneira na qual Marcos tocou sua vida; as viagens que ele realizou, os lugares que visitou, as pessoas que se envolveu, etc… Já ele, sente uma boa pitada de inveja de Júlia, pois ela teve a dádiva de encontrar o amor bem cedo. Casou-se, está feliz e viverá pelo resto da vida ao lado de quem ama. Por ser o tipo de homem que não dá sorte com mulheres, Marcos trocaria tudo (se possível) para ter uma vida semelhante à dela.

A vida é um filme engraçado com comerciais irônicos, principalmente para quem é capaz de captar a sutileza das coisas. Os casos citados acima são fictícios, entretanto demonstram o que muitos sentem no dia-dia. O Facebook é uma boa arma de entretenimento, mas pode se tornar depressiva, dependendo das circunstâncias vividas pelo usuário e daquilo que ele observa em seus semelhantes. Segue abaixo uma analise rápida do nosso cotidiano, da qual não se faz necessário um diploma para perceber:

Júlia enxergou em Marcos a vida que não teve e que provavelmente não irá ter. Já Marcos enxergou em Júlia aquilo que seu esforço foi incapaz de presentear. A questão da inveja não mora no debate de quem fez ou não as escolhas corretas – todos nós fazemos escolhas e determinamos para nossas vidas o que melhor achamos. A questão é que, independente do que fazemos ou deixamos de fazer, a vida sempre parecerá incompleta. Sempre haverá a sensação de que faltou/falta, algo, alguém, alguma coisa. A inveja (dentro do nível tolerável) nada mais é do que uma mera extensão disso, de todo esse vazio que possuímos, mesmo quando deveríamos estar satisfeitos.

E então? Seria essa bad natural? Uma circunstância da qual não se pode vencer? Um fato cotidiano que desce pela garganta de maneira obrigatória? Pode ser que sim, pode ser que não, todavia podemos matar a charada se trocarmos as peças, pois nesse jogo o fim nunca justifica os meios; de tal forma que Marcos sentiria inveja de Júlia numa situação inversa, assim como Júlia também sentiria dele, se fosse uma solteirona de meia idade. A questão aqui não é o que o outro adquiriu e sim aquilo que desejamos, mas que fomos incapazes de conseguir. É um veneno opositor ao próprio ego, não é defeito social e sim um defeito do nosso próprio caráter! Algo interno e latente. O Facebook assim como outras redes sociais só deixaram um pouco mais claro tudo àquilo que sempre existiu, porém passava despercebido.

Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Machado de Assis fez a seguinte afirmação a cerca da inveja: “Se entendeste bem, facilmente compreenderás que a inveja não é senão uma admiração que luta, e sendo a luta a grande função do gênero humano, todos os sentimentos belicosos são os mais adequados à sua felicidade”. Podemos concluir então que a história humana é recheada por uma insatisfação constante, insatisfação tal que nos obriga a correr cada dia mais atrás do progresso e evolução. O quão chato seria o Mundo se todos fossem satisfeitos, concordas? Seria complicado engolir vinte e quatro horas de estagnação, todos os dias, todos os anos, até o fim. A maior prova disso mora nas próprias redes sociais – um dia sem notificações é um dia sem novidades e a ausência de novidades torna o dia inútil. Para mim, você, Júlia e Marcos, restam apenas uma lição: há invejas que vêm para o bem. E essa em especial é tão benéfica que foi tachada no decorrer da história como invejinha branca, seja o branco da paz, seja o branco do Facebook. Nesse caso não importa porque todos os tons falam a mesma língua…

— Leonardo Veiga

2 comentários em “Um clique na tristeza

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