Um museu de grandes novidades

Depois de sair dum trem lotado, adentrou na fila do ônibus que a levaria até sua casa. Verificou o celular, pretendia descobrir o horário. Pena que testificou antes o fim da bateria, que já estava abaixo de 10%. Fato suficiente para fazê-la ficar com raiva, então selecionou algumas músicas, encaixou os fones de ouvido e colocou o celular no bolso se esquecendo das horas que pretendia ver, só pra variar. Quando conseguiu entrar no ônibus, encarou aquela lata de sardinha com desprezo, mas qualquer lugarzinho, um banco surrado qualquer, por pior que seja, estaria na lista das mais sinceras esperanças terrestres. A noite foi gentil, um lugar apareceu no meio de tanta gente, um lugar que por si mesmo era destaque: o assento preferencial do “busão”. E lá mesmo ela se jogou, ao seu lado um senhor jogava um charuto pela janela e em seguida fechou a mesma, antes que as gotas de chuva invadissem o lugar. Ela se ajeitou, olhou para o lado, como quem diz: “Boa noite! Acostume-se comigo porque provavelmente irei dormir no seu ombro”. A premissa é verdadeira, minutos depois da tão esperada partida, ela realmente apagou.

Quando abriu os olhos, já havia passado quase uma hora de viagem, levou um puta susto quando percebeu que o número de pessoas ao seu redor foi multiplicado. Além disso, muita gente que de nada tinham para merecer um assento de preferência, invejavam sua cama improvisada. Na TV-Muda que estava dentro do transporte, uma noticia surgiu com algumas fotos e legendas rápidas. Ela não sabia dizer o que era, mas por lógica qualquer um poderia deduzir que estava relacionado à Física. Dedução que se tornou verdade indiscutível quando finalmente apareceu na pequena TV a foto do falecido físico Albert Einstein.

Só que, espera um pouco! São mais de quarenta pessoas espremidas no transito. Todas cansadas e desesperadas para sair dali. Com Einstein ou sem Einstein, ninguém realmente liga para as curiosidades exibidas naquela TV: Estava um tédio! Ponto final. E por isso ela voltou a encolher as pálpebras aos poucos, segurou a bolsa com força e ameaçou um bocejo.  A foto ainda estava lá, na telinha com algumas legendas transpassando. Quando de repente o senhor ao seu lado soltou a seguinte frase: “Temos o destino que merecemos. O nosso destino está de acordo com os nossos méritos”. Num tom relativamente baixo, mas de referencia clara. Foi impossível dizer que ele não estava falando diretamente para ela, apesar de não olha-la nos olhos. Ela respirou, pensou e olhou para ele. Ele retribuiu sorrindo, devolveu o olhar e voltou a dizer: “Opa! Não é nada… Esse pensamento não é meu, é dele! Do físico”, e começou a gargalhar. Disse isso se referindo ao senhor da foto, uma famosa foto da qual ele está com um olhar cansado e com a língua de fora. Até que o comercial referente a Einstein desapareceu da TV e as propagandas voltaram a correr. Tão logo, Ela ignorou e voltou a dormir.

Acordou novamente, dessa vez mais assustada. Com aquela sensação de quem dormiu demais, acordou como se fosse um guardinha de quartel pego pelo sargento. O ônibus parou e ela reparou que aquele já passara de seu ponto, levantou-se e praticamente correu no corredor do transporte, dessa vez, mais vazio. Quando chegou à escada, diminuiu todo reflexo. O passageiro a sua frente soltou uma piadinha típica antes de saltar da última escada para a rua. Ela ignora, porém sorri. Está tarde, está frio e felizmente ela está chegando em casa. Seu nome é Bianca, uma linda mulher de meia idade. Ela caminha na rua deserta vagarosamente, irritada e cansada do trabalho. É uma noite chuvosa, turva e calada. No corpo apenas fome e fadiga. Suas orelhas já estavam enjoadas dos fones de ouvido que foram sua distração durante todo transito, sua garganta está seca e seu corpo com aquele cheiro típico de desodorante quase vencido. A maquiagem já pesada e o guarda chuva não dava mais conta da porrada natural que recebia: um misto de vento, granizo e chuva.

Até que então, ela finalmente consegue chegar em casa. Passou pelo quintal, parou em frente à porta da cozinha e vasculhou sua bolsa, com as mãos entre as moedas de troco e os panfletos distribuídos por vendedores de rua, a procura da chave. Quando encontrou, deixou o guarda chuva por ali mesmo, do jeito que chegou e entrou apressadamente na residência. Tirou a roupa do jeito que deu e logo em seguida procurou desesperadamente por uma toalha. Quando finalmente encontra, vai tateando no escuro até o quarto para juntar algumas roupas, antes de pular no chuveiro quente.

Todavia, quando Bianca chega ao quarto e acende a luz, depara com uma daquelas cenas capazes de transformar a própria vida. Aliás, por falar em vida, que tal uma pequena pausa?

“Vida”! Suas convicções, emoções, crenças e prazeres… A “vida”, não precisa de motivos especiais para desmoronar o que construímos dentro dela mesma. É uma linha do tempo quase independente, como se nossos altos e baixos estivessem traçados, nem sempre falando a mesma língua das decisões tomadas. E vai por mim: de vez em quando tudo desmorona, desbanca mesmo! A vida lhe joga no chão e rir da sua cara. E não é necessário nenhum motivo especial, pode acontecer num dia comum, como o narrado até aqui. Basta que ocorra um simples fato, uma notícia! Seja lá qual for.

Agora, voltando ao dia da Bianca: Quando aquela linda mulher acende a luz e olha para a cama, vê, de primeira mão, seu namorado – o homem que ama e que está ao seu lado por um curto longo tempo, transando com outra mulher. Aliás, outra mulher não, seria uma dor relativamente forte, mas provavelmente não deixaria cicatriz se a traição fosse com qualquer uma. A verdade é que, sob sua cama, envolta nos lençóis que ela mesma escolheu e comprou com o resultado de tanto trabalho realizado em dias cansativos como este, encontrava-se ninguém mais, ninguém menos que sua melhor amiga: Raquel. A pessoa que cresceu ao seu lado, que conhecia todos os seus segredos, qualidades e defeitos. E agora ela está lá, lhe apunhalando pelas costas.

Bianca fica pálida, sem reação, não sabe exatamente o que dizer ou como dizer. Não sabe exatamente o que fazer ou como fazer. A atmosfera perde a cor, o Mundo inteiro fica preto e branco. Jonas, seu marido, levanta vagarosamente e anda nu em sua direção;

-Calma meu amor, não é exatamente o que você está pensando… – Ele diz inutilmente.

Bianca realmente está paralisada, não consegue pensar. Ela olha para Raquel, ela ver o estado de Jonas e num ato não calculado, sai correndo dali, daquele lugar, daquela casa. Do jeito que está, sem alterar nada, sem dizer uma palavra. Tudo que lembra era de ter passado pelo portão de casa, ignorando a tempestade, de sentir seu rosto quente e as lágrimas diferenciando-se tanto entre as gotas de chuva, que pareciam possuir outra coloração, pareciam ser sangue. Seus pés tocavam o chão numa velocidade constante e frenética. Pedras, lama, granizo, sujeira – Nada! Absolutamente nada alterava seu ritmo, ela correu e correu até uma praça pública, vazia e molhada. Ficar num lugar como aquele, com uma visão oposta a do inferno nunca havia sido tão infernal.

Bianca sentou-se num banco e começou a chorar, chorou muito, chorou sem cessar. Aquela mulher sem forças de pouco mais de dez minutos parecia ter entrado em estado de ebulição.

E depois de ficar muito tempo ali, largada. Com o rosto numa mesa de cimento ladrilhada, daquelas preparadas para jogadores de xadrez, ela tenta resistir e colocar a cabeça no lugar, juntar as peças e buscar motivos, porquês, soluções. Nada poderia justificar o fato. Seu peito doía, muito! Tudo passou a ser considerado uma verdadeira merda – As pessoas, o  Mundo, sua amiga, seu Marido, o próprio Deus até. Ela se rasgava e se despedaçava, até que, depois de certo tempo, passou a sentir a presença de alguém.

Um homem se aproximou, não era Jonas. Era mais velho, usara um casaco Sobretudo muito grosso e um chapéu do qual, somado a chuva, impossibilitava a visão de seu rosto. O homem se aproximou de Bianca e ela fingiu antipatia. Como quem diz: “Ninguém é capaz de me tirar daqui”. Logo após, curvou a cabeça novamente para a mesa ladrilhada.

O homem realmente se aproximou, ao ponto de sua sombra mesmo muda, omitir o barulho de seu pranto. Ele inclinou o corpo na direção de Bianca e pôs uma das mãos no seu ombro direito, em seguida falou, direto e lento:

-“Temos o destino que merecemos. O nosso destino está de acordo com os nossos méritos”.

Bianca sentiu, lembrou e (finalmente) acordou! Isso mesmo: foi apenas um terrível susto. Um simples sonho, ou melhor: pesadelo. Momentos surreais dos quais ela mesma não conseguia ordenar, padronizar e medir. Viu que ainda estava no ônibus e logo de imediato percebeu que seu rosto estava molhado e que algumas pessoas comentavam, disfarçando sorrisos ao seu redor. Reparou também, que aquele velho senhor que dividira o banco momentos antes não estava mais ali, ela sequer sentiu quando ele passou para o corredor. Ele provavelmente havia descido em algum lugar do trajeto e nenhuma outra pessoa ousará sentar no mesmo assento, pois como a janela foi deixada aberta, o banco estava completamente molhado.

Bianca não voltou a dormir, manteve o silêncio até chegar em seu ponto. Quando desceu, puxou o celular novamente e resolveu ligar para Jonas, pretendia avisar que finalmente estava chegando, pensara em puxar um rápido assunto relacionado ao jantar e acima de tudo, ela queria muito testificar que, dessa vez, tudo era real e que aquela cena terrível não iria se repetir.

O problema é que ninguém atendeu o telefonema, nas três vezes em que tentou. As ruas estavam desertas, tudo estava bem semelhante ao pesadelo, detalhe apenas para tempestade que havia resolvido fazer uma pausa. Bianca caminhava pensativa, de som apenas a da sua própria bota no asfalto, grave, apressado e (pelo menos dessa vez) realista. Ela se aproximou do portão de casa e resolveu buscar detalhes dessa vez; Notou de primeira que as luzes estavam apagadas, tudo estava calmo demais. Jonas tinha o costume de ser barulhento e numa Quarta Feira à noite, era de se estranhar que a televisão não estava exibindo nenhum jogo de futebol no último volume.

Ela então abriu a porta e reparou cada detalhe da cozinha, sem pensar em ligar as luzes, notou que havia uma garrafa de vinho sobre a bancada e duas taças semivazias. Tirou as botas de forma bem lenta e estranhou aquelas taças, contudo ouviu um baixo barulho vindo da sala, tão logo caminhou até lá, deixou a bolsa no sofá e resolveu ir direto ao quarto. O silêncio era o pior inimigo, havia uma sensação quase palpável de que algo estava para acontecer. Muitas cenas passavam na sua cabeça, o pesadelo ainda estava muito vivo. Quando Bianca abriu à porta do quarto a luz da sala foi acesa. Ela então ouviu alguns passos – alguém estava se aproximando por trás, a impressão era de ter sido pega de surpresa. Bianca deu meia volta e lá estava Jonas, sorrindo:

-Oi amor, finalmente chegou! –Disse ele retirando uma blusa que parecia estar manchada.

-Jonas… – Ela respondeu, ainda questionando a realidade das coisas.

-Desculpa. Eu estava na garagem fuxicando o motor do carro, acho que vou precisar leva-lo ao mecânico amanhã… Mais uma dor de cabeça. Bom! Tudo bem amor? Eu estou um pouco sujo, vou tomar um banho e preparar alguma coisa para você comer.

Ela ficou de braços cruzados, resolvendo as ideias que nasciam, não ousava adiantar nenhuma pergunta, precisava, antes, encaixar as peças. Porém depois de jantar e de tomar um bom banho, ela finalmente relaxou.

Mais tarde, já na cama, Jonas caiu num sono fatal. Bianca ficou refletindo por um bom tempo sobre tudo que aconteceu, até que relembrou novamente do texto dito pelo velho: “Temos o destino que merecemos. O nosso destino está de acordo com os nossos méritos” e logo depois, dormiu.

Pena que muita gente não reflete sobre tal pensamento.

Pena também que, na vida “real”, foi Bianca que roubou Jonas de Raquel, pois seis meses antes, estes últimos eram casados.

Pena maior a de Bianca, que desejando engolir suas interpretações errôneas, esqueceu-se das taças de vinho que viu sobre a bancada quando chegou em casa.

E pena dos três personagens, pois se Bianca ligasse a luz da cozinha, certamente iria reparar na marca de batom que estava na borda de uma das taças. E na calcinha de Raquel jogada no caminho para o banheiro.

-“Temos o destino que merecemos. O nosso destino está de acordo com os nossos méritos”.

Pra quem ignora essa verdade a vida é empurrada do jeito que dá. Contudo salientando o que disse na pausa: As consequências das atitudes são sempre reais e independem das escolhas feitas durante a vida.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: