Meu momento

Aqui estou em mais uma noite sem sono. Os pensamentos a mil por hora. Deitada na cama, não canso de balançar as pernas. Um sinal nítido da ansiedade que dia após dia tem consumido o meu ser.

À escuridão, me levanto. Abro de relance a janela. Está chovendo. Por fim, nada de interessante para constatar no momento. Engraçado que, outrora, a janela foi por inúmeras vezes o palco da minha inspiração para escrever textos. Infelizmente, essa rotina também me cansou.

Sento-me numa cadeira. Nada para fazer. E, como se os meus olhos buscassem uma saída dessa escuridão, me deparo com caixas de comprimido ocupando um pequeno espaço sobre a cômoda. Observo-as atentamente. “Seria a saída que você tanto deseja”, pensei comigo.

Acendo a luz e pego uma das caixas. INSÔNIA, ANSIEDADE, IRRITABILIDADE. Lembro-me que o farmacêutico recomendou tomar duas cápsulas por dia. Não seria melhor ele ter dito para tomar tudo de uma só vez? Que se d*. Eu mesma posso fazer isso.

Despejo água em um copo médio de vidro. Em seguida, coloco em mãos a primeira, a segunda… a décima cápsula. Sem pensar duas vezes, ponho-as na boca e bebo toda a água como um animal sedento no deserto. Pronto! Está consumado. Agora é só esperar a minh’alma fazer a longa jornada rumo ao desconhecido…

DE VOLTA À REALIDADE. Com lágrimas no rosto e mãos trêmulas, jogo os comprimidos no chão e atiro o copo contra a parede. Minúsculos pedaços de vidro dominam o recinto. Esta seria uma bela cena para se vê em câmera lenta. E, como se a força gravitacional me puxasse além do normal, vejo-me caindo de joelhos. Com as mãos na cabeça e rosto encharcado, começo a gritar desesperadamente. Não me importo se o barulho vai incomodar o vizinho ao lado, quero que ele se f*. Esse é o meu momento, momento de chorar, de gritar, de pôr toda essa angústia pra fora.

Respiração ofegante. Olhar no infinito. O ambiente é um quarto de hospital:

– Mãe, eu me sinto tão… tão mal por vê-la nesse estado, tomando todos esses remédios…

– O que a gente não faz para que a vida nos conceda mais uma chance, filha? Enquanto muitos ingerem remédios para morrer, eu sou uma das muitas pessoas que precisam tomá-los para viver. Pense nisso. Uma mesma ação pode ter fins totalmente distintos.

Logo depois, sua mãe adormeceu. E alí estava ela, observando-a e refletindo àquelas palavras.

De volta novamente à realidade. Levanto-me devagar. Enxugo o rosto com a manga da camisa. E mais uma vez penso comigo: “Não foi dessa vez Talita. Talvez algum dia, quem sabe”..pexels-photo-2980323

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Hiato

sobre o seu abraço buraco que ao me aquecer me afunda.
a luz que entra pelas gretas de um quarto escuro, mas que não o faz deixar de ser um quarto escuro.

(ainda assim essa luz acalma)

sobre você ser buraco íngreme fundo que eu me afundo sem me arranhar ou me prender nas paredes.
afundo como se esse fosse o meu destino,
e esse é o desatino, ai que o nó desata e enforca sem dó.
seu abraço buraco fundo deveria ser buraco cheio.
você deveria ser conforto,
cama,
carinho.
mas é buraco fundo que eu me afundo na solidão.
talvez essa seja a única forma que você sabe ser.
e eu, eu tenho que me esforçar para não me tornar o abraço buraco fundo de alguém.

A queda

Após me tornar poderoso em guerras e estabelecer meu reinado, meu coração se envaideceu do mais profundo e vil orgulho. Os filhos do meu povo entoavam cânticos em meu nome, as multidões de meus inimigos temiam e assombravam-se de medo perante a minha presença. E do brilho do ouro meu espírito se embebedou e minha alma se encantou pela própria imagem refletida na lâmina d’água. Tornei-me um rei tirano e impiedoso que não se compadecia por nenhuma alma vivente. E cada dia mais uma sombra crescia dentro de mim, e a escuridão se despertava. Foi dado asas a serpente. E ela acordou de seu sono e destituiu de mim o meu reinado. O rei que antes era orgulhoso, hoje banido. Continue lendo “A queda”

Entropia

Vinha andando na rua com aquela sacola de plástico, tocou o interfone e ela logo atendeu.

— Oi?

— Oi, sou eu

–Tô indo.

E enquanto ela ia, ele deu uma arrumada na roupa, olhou os sapatos e fez cara de quem se arrependeu de estar com eles. Ela abriu o portão “entra”. Ele deu um passo adentro e ficou a olhando-a até que ela fechasse a entrada. Depois ela seguiu na frente com as pernas magricelas. Foi direto a cozinha. Pegou uma xícara e encheu-a de café, ele atordoou-se um pouco pela ausência da fumacinha que tem o café quente. Havia um cheiro de hortelã no ar, e uma garrafa pequena em cima de uma mesinha, ele a tocou discretamente e pôde sentir que estava quente. Ela sabia que ele gostava de chá de hortelã, mas lhe serviu café. Frio. Ele olhava a grande garrafa de onde havia saído o café, enquanto ela abria o armário e pegava uma tigelinha, onde colocou umas 5 rosquinhas de chocolate. Segurou a tigelinha e a xícara, uma em cada mão, e virou-se para ele estática, enquanto ele tentava arrumar jeito com a sacola para pegar as coisas. Quando ele segurou tudo, ela puxou uma cadeira e sentou-se, o encarando com as coisas nas mãos. Ele se desconcertou, fez cara de susto, foi até a mesa, desajeitou-se novamente por causa da sacola, puxou uma cadeira e sentou-se. Ela continuava a olha-lo, ele sorriu para ela sem graça e começou a comer a comer as rosquinhas. Continue lendo “Entropia”

DT 32:2

Esse negócio de seguir em frente é uma das coisas mais complicadas que a humanidade pode inventar. Ao sentar na minha varanda e esperar a chuva passar, ao abrir meu pacote de cigarros e notar que está vazio, ao amassar a lata de cerveja, ao ler o novo e-mail com a fatura do cartão, sinto na pele o tremendo esforço que a vida anda fazendo para me puxar, novamente, ao plano da realidade. Só que todo esforço parece ser pouco, todo problema é mínimo. Sinto-me suspenso, acima das regras do cotidiano, engatinhando numa corda bamba entre o real e o imaginário. Tendo de um lado suas palavras, promessas, atos e memórias e do outro o fato de que você não voltará mais. A cerveja eu pego na geladeira, a fatura eu resolvo no banco, o cigarro eu compro na esquina. Mas e você? Não há resolução para você, para nós dois. Não existe dinheiro que compre ou atitude que repare. O que dá pra fazer é sentar e esperar, tal como, agora, eu espero o passar da chuva. Equilibrando-me nessa corda fina de embaraços, assistindo os meus dias transcorrem e derreterem.

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Missiva

xxxxx, xx

Minha vida anda desajustada. Sabe aqueles relógios que você ajusta a hora num instante e no outro ele já tá marcando a hora errada de novo? É um pouco assim que me sinto. Nenhum dos meus relógios quebrados teve conserto definitivo. Sempre os joguei fora. Há pessoas que colecionam relógios quebrados. Pergunto-me por qual motivo (?). Não servem mais. Só ocupam espaço. Também já vi pessoas que dão mais atenção para os relógios quebrados do que para aquele que carregam no pulso, e lhe é de alguma serventia. Você percebe o que quero dizer? Relógios quebrados também precisam de cuidados. Relógios desajustados também são dignos de cuidado. Faz sentido pra você?

Precariedades

Faz frio no Rio,

Faço sinal para o ônibus, entro e atravesso a roleta. Tento escolher um bom lugar, mas infelizmente não há muitos. Fico com o melhor local possível e nele me sento, bem ao lado de uma garota.

Eu não a conheço. No entanto, por alguma razão, ela guarda o celular na bolsa assim que me vê. A julgar pela gravata engraçada, pela blusa social, meião e saia curta, ela é uma estudante de licenciatura. Eu me ajeito no banco, o ônibus segue.

Dois minutos depois, algo começa. Algo latente. Uma vontade, uma indiscrição, um desejo. Da parte dela, claro, não da minha. Eu sigo transpirando a minha indiferença notória.
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azul ausente

e ouviria você recitar o poema por 10 ou 12 vezes. acho que te pediria para recitar durante a  noite inteira. a sua voz, você, o poema. já é noite. te peço: recita o poema. daqui eu te escuto.  diria-te que tua voz soa como barulho de mar que acalma, mas soaria clichê. digo-te apenas que te escuto, sabes bem que te escuto. a noite até ficou mais bela. posso ver e ouvir você recitar o poema. você. a noite. o poema. a voz. você. o poema. a voz. você. te peço: recita o poema.

Eu que amava

Toda sexta feira eu gosto de beber um pouco de vinho e tomar cerveja pra dar uma relaxada. Eu não faço nenhum tipo de marketing dos excessos ou dos vícios, e respondo por mim sobre meu controle, odeio fugir do eixo racional e não uso nada exterior a mim como válvula de escape. Eu saio, dou uma volta pela cidade com meu melhor amigo pra conhecer novas pessoas e contextos, e começo conversar sobre aleatoriedades da vida e papos “cabeça”, em contrapartida, qualquer nível de stress e apreensão é eliminado por esse diálogo eufórico. Eu faço assuntos difíceis e pesados se tornarem engraçados e simples sob efeito do álcool. De segunda a sexta eu sou movido a cafeína e outras paradas, mas sexta meus caros… Ah sexta, o dia de tomar umas pra relaxar e divertir um pouco… Continue lendo “Eu que amava”

notas caóticas

faltam apenas quatro meses para o fim do ano. notei o tempo passar como um pássaro que passa voando na minha frente enquanto espero o ônibus na calçada em frente à praça. o pássaro passa voando. o tempo passa voando
o tempo pássaro voando passa. bem na minha frente. o tempo. o pássaro. o pássaro-tempo passa.  eu já nem sei mais quem eu sou. você disse que ia, mas que voltaria. você disse, lembra? a ponte é a mesma, mas eu não. a ponte é a mesma, mas eu não.

Lição

Depois da embriaguez? Amargura,

Depois da euforia insana? lucidez,

Das noites terríveis a clareza,

Do fim de paixões vãs a tristeza.

É como o café amargo que alerta,

A a escuridão que precede,

Desperto do sono animal,

O fim de sua ilusão chegou!

Já dizia os poetas: Há mal que vem pra bem.

Hoje provo desse fel que acorda,

Dos acordes cíclicos de melancolia,

Que se põe em um sorriso torto,

Das dores que o disfarce esconde…

 

Seleção Natural

O meu avô caçava passarinhos e revendia de forma ilegal. Ganhou um bom dinheiro com isso, conquistou muitos bens com isso, construiu um legado com isso. Sou contra. Porra, sou completamente contra. Vê-los e ouvi-los de perto, cheios de graça, é até bonito, sabe? Mas vendê-los? Céus! Sou contra. E agora tem esse cara, esse vizinho, que todos os dias deixa a gaiola diante da minha janela, posso vê-lo em pleno ato daqui de cima, do meu segundo andar. Ele está lá, com seus cordões de prata e o dente de ouro. O cara ganha a vida revendendo os pássaros e se gaba por conseguir lucrar, no decorrer da semana, o que nós, meros mortais, ganhamos em dois meses. Ele sai de casa pela manhã, antes do sol, e caminha até o terreno baldio em frente ao meu portão. Por lá, deixa a gaiola pendurada na árvore e fica de longe vigiando. O passarinho canta, não tem escolha o coitado, apenas canta; canta sem parar. Alegra o meu dia e a alma da rua inteira. É bonito, não nego. É uma das coisas mais belas da natureza, do universo. Só é o tipo de beleza que não deveria coçar no bolso de ninguém, que não deveria despertar o tesão pelo comércio. Pelo menos eu penso assim. Pena que nem todos pensam como eu. Na infância imaginava como seria o mundo se todos pensassem como eu. Não existiria o estudo da química, as pessoas não beberiam chá-mate, o funk não seria popular, os bancos não dariam cheque especial, o Corinthians teria falido, ninguém teria inventado as calças sociais, nem os talheres de plástico, nem o Excel, nem os fones intra auriculares. E as ruivas? Cara, elas são verdadeiras deusas! Teriam sempre preferência em tudo, seriam as rainhas do planeta. Seria um mundo péssimo? É. Seria. Todavia garanto que pelo menos os passarinhos estariam livres, leves e soltos. Os funkeiros reclamariam, os pássaros não. Eles apenas cantariam, não têm escolha os coitados, cantariam sem parar.
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Estupefato

Poesia, velha arte do encanto
E se descer-me o teto escuro
Quem há de iluminar meu canto?

 

Se hoje sou poeta,

O sou pois já amei e tanto

Que as rimas indiscretas

Derramo no papel, de espanto

 

E o susto arrepiado dos meus versos

Faz o som mais predileto

Quando encontra os lábios teus

 

Ruas, coisas tortas de concreto

Onde passo em desconcerto

Procurando os passos, Deus!

 

Mas se acabar meu universo

E eu versar o avesso inverso

Desse verbo que era meu

 

Vivo! Em silabadas no meu peito

Embalando um som perfeito

Meu amor jamais morreu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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