O orgulho de ser um ninguém [+18]

Quando a música terminou de tocar, olhei ao redor e não vi mais nenhum dos rapazes que vieram comigo. Provavelmente já estavam bêbados demais para lembrarem de mim, ou se deram bem e estão beijando alguém em algum canto do terraço. Pela vidraça notei que, lá fora, o sol já estava pra nascer. As nuvens tomavam uma cor próxima ao púrpura e eu não via mais a lua. Então sai do meio da baderna e andei até a varanda. A música rolava ali também, com direito a balcão de drinks e pessoas se pegando na piscina. Piscina? Caralho, era muita vontade. Deveria estar fazendo pelo menos 2°; um frio de lascar. Aproximei-me do canto mais solitário que achei. Debrucei-me sobre o muro de vidro e acendi um cigarro. Dei um trago bem demorado e depois contemplei a cidade toda lá em baixo. Era prédio que não acabava mais. Por mil demônios, eu deveria estar no trigésimo andar a julgar pelo tamanho dos carros nas avenidas. Ou será que é só a bebida falando mais alto? Ah. Quem se importa? A noite paulistana é maravilhosa. De dia até pode ser depressivo, por vezes infernal. Mas a noite? Puta merda. A noite era a melhor do Brasil! E foda-se quem pensa diferente de mim, não acham que dói para um carioca assumir isso?

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Nas Nuvens

Eu sou o puro oceano de mar próprio,

Que navego intenso por inteiro,

Viajo nessas águas azuis de mim mesmo,

Nesse navio voador sem marinheiro.

O céu beija o oceano, saudades da terra!

Quando retornarei a Marselha nesse brigue catalão?

Antes que venha o vento forte de um tufão.

E a cada noite perco-me enquanto procuro-me,

Acho-me distraído suspensos nos ares,

Por isso que exploro os mares da solidão.

 

 

 

Julho

É julho. Hoje o dia foi ensolarado. Eu queria escrever sobre a felicidade dos meninos que soltam pipas em cima das lajes, mas me falta coragem. Observei por um longo tempo. Em julho, o céu fica repleto de pipas e as lajes repletas de crianças. É bonito ver.

Eu queria escrever sobre a felicidade dos meninos que soltam pipas. E sobre a tristeza daqueles que as perdem e as veem flutuar pelo ar, e parar em algum telhado. Eu realmente queria escrever sobre a felicidade dos meninos que soltam pipas.

Tem dias que não sou capaz de sentir absolutamente nada. Esse é um deles. Eu queria sentir a felicidade dos meninos que soltam pipas nos telhados aqui do bairro, mas é julho, e julho é triste. Exceto pelo fato de se ter crianças empinando pipas nos quintais.

Dias assim

É que ultimamente o tempo anda meio louco e a minha vida tem acompanhado tal loucura. Amanhece ensolarado, mas logo as nuvens escuras chegam. Eu deito na cama. Não quero ver ninguém. Falar com ninguém. Desanuviar  em dias assim não é fácil.

Eu faço o que quando já não sei o que fazer? Se alguém criasse uma fórmula de desaparecimento – corpo e alma – eu compraria. Hoje eu fiquei pensando em tudo o que eu não sou. Fiquei deprimida por não enxergar algo além do nada. Não sou e não tenho em mim todos os sonhos do mundo. Eu tô no fundo. O poço fundo me é abrigo. Abrigo também mata, saca?

Caminho meio perdida. Cambaleando. Não sei pra onde ir. Não sei como ir. Devo ir? O fundo do poço é meio que um imã na minha vida. Quando dou por mim é lá que já estou.

Que as nuvens carregadas por mim passem e não me levem. Desanuviar é palavra bonita. Você não acha? Desanuviar. Espero mesmo que por aqui tudo possa desanuviar.

Escrever e nada mais!

Certa vez um leitor me disse que estava decepcionado com os escritores atuais sobretudo porque, segundo ele, a maioria deles “perdem muito tempo escrevendo sobre si mesmos e não criam novas histórias, crônicas, poemas, contos e novelas de tirar o fôlego” (sic). Eu entendo a crítica dele e respeito a opinião mas, precisamente sobre ela, gostaria de fazer uma pequena observação;
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Prosopopeico

As vezes olho as paredes

E parecem falar comigo

Alguma coisa surda,
Breve, opaca, indissoluta
O no timbre insuportável dos seus versos
Venho ver meu universo,
entre dedos me escorrer
E a cada gota suja da memória
Essa dor é minha história
Não é fácil de esconder
Já inerte
entre as notas frias da parede
Meu chorar, a minha sede
E essa melodia morta
Digo:
sede fortes, homens, sede!
Quem tem dor tudo suporta.

Coração Oco

No princípio eu acreditava que o vazio era um mal que só alcançava os grandes pensadores, os mais cultos, os membros da alta classe e os maiores filósofos de um século. Dostoiévski sofreu com ele, Nietzsche explicou-o por demasiado, Schopenhauer e Hegel falaram até cansar. Mas tudo se tornou confuso após alguns anos quando eu — mesmo sendo tão pequeno, pobre e insignificante — fui abraçado por esta mesma tenebrosa sensação. Através dela, prossegui numa estrada esquisita, confusa e muito, muito solitária.

O vazio existencial é o último degrau de todos os conflitos pessoais. E digamos que seja um pouco complicado debater o niilismo na juventude, sobretudo porque a maioria esmagadora dos jovens estão enraizados demais com a vida. Alguns mergulham na carreira, outros nos estudos, outros perdidos em volúpia, outros na fé ou viajando de região para região. No fim, todo mundo vive pelo que é, ou pelo que tem (o famoso ser ou ter). E todos possuem algo da própria vida que os definem por completo, quase como sinônimos diretos de si mesmos, como relacionamentos, profissões, currículos estudantis, religiosos ou qualquer outra coisa semelhante. Eu, por outro lado, não sou assim. Há anos não sou assim. A tecnologia da informação não me define, muito menos meus anos dedicados a ela. Minha escrita não me define, embora já tenha feito tanto. Minhas canções, meus projetos, meus discursos, minhas leituras e argumentos são, no geral, atributos de um ente inclassificável que leva meu nome de batismo. E é este ente que busco entender diariamente, tendo sempre a sensação de que ele é modificado por completo todas as vezes em que estou próximo de um resultado, obrigando-me a recomeçar e recomeçar e a tocar o barco com o peso desses recomeços habituais.

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Das ervas que restam

É. Lá se vai o terceiro copo de chá.

Dizem que é o tipo de bebida que nos ajuda a refletir e… quer saber? Não importa a quantidade de xícaras. Acho que só o tempo realmente nos ajuda a pensar, pôr as coisas no lugar, recuperar o fôlego e voltar aos eixos. Eu vivi uma maravilhosa e confusa aventura que, em teoria, acabou. Fato delicado e cheio de pontas soltas. O problema é que quando se relembra um fato por inúmeras e inúmeras vezes, os elementos principais se tornam meros detalhes e os meros detalhes passam a protagonizar a porra toda. A vida é vista por um novo ângulo, o passado é narrado sob uma nova perspectiva e as regras são ditadas pelas coisas das quais não fiz questão. Faz sentido, agora, o porquê de você só ter me procurado quando estava mal, quando não tinha ninguém para conversar. Faz sentido, agora, o porquê de você desaparecer quando está feliz, quando as coisas estão bem, quando tudo passa a dar certo. Eu acho que minha amizade foi convertida num escritório virtual de psicologia, tornando-me útil apenas para abraçar o seu lado mais obscuro. Quando esse lado hiberna, não tenho lugar na sua vida. E sou, então, educadamente deixado de lado.
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Desfecho

Escrevo essa carta por enigmas enquanto sobriamente minha alma grita por dentro não de dor, mas bebe em um tom de sarcasmo para o desabafo inevitável. Sei que futuramente tal texto dificilmente será entendido até por mim, mas mesmo assim é uma daquelas coisas dignas de se tomar nota.  Digo que o mesmo frio que gela a pele e causa tremores no corpo também queima a alma. Eis o constante motivo de meus pontuais silêncios enquanto meu espírito recita poesias e bebe vinho. Continue lendo “Desfecho”

Algum dia do calendário

Para ouvir – the owl – rainy sun

Para N.,

Os dias andam nublados. Há dias o sol não entra pela janela. 15:10 o ônibus sobe a ladeira. Chove. Em dias tristes. Pessoas tristes. Tudo anda tão triste. Ouvi no rádio ontem que duas pessoas foram encontradas mortas na calçada da rua que leva ao condomínio morada nobre. Morreram de frio. O que é nobreza pra você? A tempestade que cai é triste. A água que escorre pelas ruas é triste. Lá do outro lado a pessoa que ouve “Piano Bar” do Engenheiros do Hawaii é triste. Você ainda consegue dormir à noite? Faltou luz. Somos todos tristes. Há felicidade ainda aqui?

Escrevo estas linhas desconexas, pois nada aqui faz sentido. Uma carta-protesto, talvez, mas com que propósito? Contra quem? Eu mesmo e minha hipocrisia?! Há algum propósito nessas coisas que fazemos? Uma criança sorriu pra mim ontem na rua. Um pássaro pousou na janela da cozinha enquanto eu lavava a louça. Ainda chove. Eu não lembro que dia é hoje. Fiz bolo de laranja. Ando cansada. Já reparou em como a cidade é cinza?

L.

Naquele quarto escuro

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Eram quase 2h da manhã. Ficara algumas vezes acordado até esse horário assistindo vídeos no YouTube, acessando as redes sociais… Mas nesse dia foi diferente. Não queria usar o celular, almejava apenas dormir. “Será que é querer demais? Acordar às 5h da manhã não é algo prazeroso” – pensou.

O sono não estava chegando. Também não sabia a que horas viria. Quando fechava os olhos, um turbilhão de pensamentos o inundava, tirando-lhe o sossego e o fazendo rolar na cama. E, já que o sono não dera sinal de alerta, ele desejava uma coisa. Não se tratava de nada simplório, mas de algo MUITO extraordinário. Alguns diriam: “ele está ficando louco”. Isso o fez recordar de uma cena do filme ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS:

“[…] – será que estou ficando louco? – disse o chapeleiro.

– Sim, você está completamente louco. Mas vou lhe dizer uma coisa: as melhores pessoas são assim – falou Alice. Lembrar-se desse diálogo o fez sorrir brevemente.

Naquele quarto escuro, sozinho em plena madrugada, o algo extraordinário ao qual gostaria que acontecesse era que o Criador se revelasse a ele. Sim, tipo um clarão aparecesse do nada e iluminasse todo o seu quarto, ou melhor, toda a sua alma. Ouvira algumas vezes relatos de pessoas que vivenciaram experiências com o Altíssimo, e mesmo se considerando uma criatura totalmente desprezível, adoraria o fato de Deus falar com ele. Teria tantas coisas pra perguntar, falar sobre a vida, sobre tudo o que lhe atormenta… A sensação de não encontrar respostas imediatas o angustiava.

Ele se encontrava cansado, é verdade! Não o seu físico, mas a sua alma. Porém, ainda que para uma grande maioria Deus se revelar para alguém fosse algo impossível de acontecer – talvez uma coisa fantasiosa demais -, ele ainda queria acreditar nessa possibilidade. E tinha certa certeza que esse acontecimento mudaria a sua vida – e para sempre.

Ops! Ele percebeu que o sono anunciou a sua vinda – tardia, é claro. “É o momento de fechar os olhos e permitir que ele me ‘consuma'”. Nem que fosse por um pouco de tempo. Afinal, 5h da manhã estava logo ali…

A primeira carta

Alda,

Não sabia como iniciar, o tempo passou e eu acho que perdi a prática de como se iniciam as conversas   – até mesmo as escritas. Tenho sentido a sua falta todo esse tempo, mas havia em mim um certo receio de me comunicar por esse meio – “um pouco antiquado” – você diria. Pessoalmente eu riria disso mais uma vez, mas agora distante, e com o sacrifício que me é pegar uma caneta e escrever-te, me sentiria envergonhada com tal resposta, e provavelmente não mais escreveria.

Aqui continuo sem sinal, já desisti de conseguir internet, e a tv na sala, não mudou muito, está lá apenas para que eu pareça menos selvagem. Aos domingos vou a cidade e compro pão, pudim e um jornal que às vezes me disponho a ler, mas por fim desisto. Estou gostando de me esconder aqui, temo não querer mais sair. Posso plantar o meu próprio alimento e me isolar por completo aqui dentro, não se preocupe, não farei isso, o meu temor é exatamente o contrário, o de quando por fim eu terminar a montagem do herbário, e assim ter que arrumar as malas, coloca-las no carro e partir.

Tenho uma novidade: a senhora que mora “aqui perto” deu-me um pezinho de funcho (é erva-doce, digamos) e mais dois gatos, sobre eles não irei falar muito, não quero estressa-la. Mas quanto a planta sigo-a admirando, prometo dar-lhe mais notícias dela. A “folha seca” que estou te enviando, achei por aqui, não sei de que árvore vem, nem descobri, mas achei bonita e acho que irá gostar. É só.

Com amor,

Eleonor

ruído

no cair da tarde me lembro de você. agora tudo está mais calmo. a luz atravessa a janela da porta da sala, uma luz branda que faz tudo ficar mais belo. a trilha sonora tem barulho de chuva ao fundo. imagino-me vivendo em alguma vila pesqueira. navegando em uma canoa. pescando e acendendo as lamparinas pela noite. fazendo bolo na folha de bananeira – pé de moleque daquele que a minha avó fazia. imagino nós dois conversando ao lado de uma fogueira; tomando café e contando coisas de quando éramos crianças. uma vida tranquila, não é? gosto de imaginar poder ter algum dia uma vida tranquila, mas o ser humano tem o dom de sempre estragar tudo.

[agora eu acordei. viver numa cabana em uma vila pequena isso não existe, não é? vidas tanquilas não agradam a ninguém e também não existem, existem? ignora. ando querendo viver de clichês ultimamente. o barulho de chuva ao fundo não era chuva: era ruído.]

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