Recado na porta da geladeira

O mundo lá fora gira agitado, meio tombado de lado, sei lá!

Há coisas novas acontecendo por todo canto, e as cortinas das casas estão se fechando mais cedo por causa do frio. Aqui comigo os planos ainda são os mesmos: ando fazendo adaptações para que eu possa caber em mim. Não leio os jornais e falo sobre assuntos que eu não sei baseada em livros antigos que li e que mal sei pronunciar o nome do autor. Depois, sozinha, rio da minha ignorância.

Ando devagar pelas ruas e converso com os meus gatos. Sempre esqueço de molhar as plantas, mas nunca de cumprimenta-las. Não me sinto mal, contudo não estou bem o suficiente.

Nada em especial acontece. É sexta-feira, amor!

Procurei por mim hoje como nos dias anteriores – É realmente difícil encontrar aquilo que não se conhece – sai cedo e resolvi as minhas coisas, o que não consegui hoje ficou para amanhã.

Amanhã é o meu aniversário. Há uma calmaria boa aqui dentro. Eu me sinto bem por não ler os noticiários, de todas as formas comprei uma quantidade a mais de biscoitos amanteigados e ração para os gatos.

Silêncio e sons

A tarde do dia de hoje é fúnebre, trágica e séria. Uma monotonia revestida de súbita palidez, frio e silêncio. O descaso perfeito para os poetas escreverem seus sonetos irreais. O brilho de um dia de neblina com gritos silenciosos de pingos de chuva. Uma euforia talvez seria um momento não oportuno, uma zombaria dionisíaca que atrapalharia minhas folhas borradas de versos ridículos. Entre as demais, fico com a proposição de Dostoievsky: “Meu amigo, lembre-se: ficar em silêncio é bom, seguro e bonito”. O silêncio é belo por si só pois nele mesmo contém a mais bela poesia, a de expressar sensações sem que seja necessário uma só palavra, linguagem desprovida de som. Por mais que eu tente transcrever minhas sensações sou impossibilitado por inúmeras razões. As sensações que me veem deveriam caber em um papel ao menos…

Me sinto extasiado inexplicavelmente, em um momento de mistério e percepções, raros até então porque a muito tempo não consigo escrever nada que alguém além de mim mesmo consiga entender. Cotidianamente descemos por horas e horas telas e vemos ilusões de vidas perfeitas e sem problemas, eis o mal, as alegrias são expostas e as infelicidades não, por isso não sabemos lidar com o sofrimento quando estamos tristes. O que é mais importante? Ser feliz ou parecer feliz ao menos? Tanto faz para o mundo que gloria as máscaras de papel que cairiam em um temporal chuvoso. Somos tão familiares e ao mesmo tempo tão distantes das verdadeiras relações. Nas redes sociais tudo é bonito, belo e perfeito… Monstros que nossa vida civilizada é capaz de criar e que não conseguimos desprender. Uma loucura de Dionísio em um copo de vinho seco ou brilho que rompe a alma de Apolo?

 

Um rascunho em um momento estranho,

Falhas tentativas de reproduzir o belo,

Certezas destruídas em versos,

Apatia e desânimo,

Sons…

 

 

A escrita é para mim a forma mais poética de descrever as incertezas!

 

 

 

Gipsy

Caminhou do trem para a cidade,

De uma beleza que envergonha até flores,

E de olhos que pluralizam qualidades.

Seu carinho, clandestino, é violeta,

Tens leveza, tens requinte, velados em seda,

Com uma boca que gaba e afaga,

Quem é ela que enfurece as solteiras?

Que desperta o ciúme das casadas?

 

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Das agudezas da vida

 

Às vezes eu acho que tudo não passa de sonho. Acho que faço drama pra chamar atenção, mas eu odeio ser o centro das atenções. Eu não queria ser essa confusão, mas eu sou – e não tá tudo bem. Tudo parece tão insignificante.

Tem horas que eu desejo sumir, então leio todos os poemas e textos que já me fizeram chorar um dia. Eu me derramou em lágrimas e esqueço os motivos pelos quais eu queria sumir. Então a vontade de sumir vai embora e surge a vontade de fazer coisas pelas quais tenho vontade de ficar  e ter força e coragem pra não querer sumir – pelo menos por um tempo.

De vez em quando – ultimamente quase sempre – eu me sinto sufocada. Eu não consigo ou escrever ou ler, e tudo é entediante. Às vezes eu me sinto inútil e confusa e triste demais. E é péssimo me sentir caminhando pra trás enquanto todo mundo segue em frente. Eu sei que eu não devia, mas eu me sinto péssima por nunca saber o que quero e por sempre cometer os mesmos erros. Eu me sinto péssima por não sentir vontade de fazer as coisas. Eu me sinto péssima por me sentir péssima.

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A vida como ela é

Erick acordou as 6hrs, sentou, coçou a perna e caminhou até o banheiro para lavar o rosto. Enquanto dedilhava a face, achou uma espinha na testa. Tentou espreme-la, entretanto a situação piorou. “Merda! Logo hoje? Ninguém merece”. Sua reclamação tinha fundamento: Erick estava para apresentar, dentro de poucas horas, seu projeto final. O software que desenvolveu durante os últimos seis meses no curso de Ciências da Computação. Desceu até o primeiro andar da sua casa, sentou na mesa e tomou o café da manhã. Despediu-se da mãe, catou a mochila, o pen drive e saiu de casa em direção a faculdade. Precisava chegar lá até às 10hrs.

Erick tem 24 anos. É nascido e criado no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro. Como cidadão de classe média, teve sua vida dividida entre escolas públicas e privadas, mas sempre se destacou em todas que estudou. Venceu campeonatos de matemática locais e nacionais. Aos 13 anos, desenvolveu um simples maquinário capaz de armazenar cinco quilos de comida. O aparelho era controlável via bluetooth e, uma vez programado o horário, de tempos em tempos, liberava uma porção de ração para cães. A ideia era deixar a máquina do lado de fora das lojas de rações para que os cães de rua pudessem se alimentar. O negócio deu certo! Muita gente gostou da ideia e seu projeto foi aclamado. Seu arranjo inovador, ajudou-o a se formar no curso técnico de programação. Entrou na faculdade aos 18 anos. Mas já estudava e estagiava na área desde os 16. Trabalhou em cinco empresas, como estagiário, programador e web designer. Participou de grandes projetos. Mesmo sendo novo, tinha seu sobrenome no rodapé de alguns bons sites espalhados por aí. Era um rapaz de bom caráter e de um futuro promissor.

Michael acordou no mesmo horário, na comunidade do Jacaré, no Rio de Janeiro. Michael também tem 24 anos de idade e o ensino fundamental incompleto. Entrou na boca de fumo aos 12 anos, avançou no tráfico, ganhou status e hoje é um soldado temido. Michael é conhecido na comunidade como Catatau. Catatau possui um grande amigo, o ruivo. Ironicamente Catatau não é moreno e sim branco, do mesmo modo que seu amigo ruivo é indígena. Foi ruivo que acordou Catatau. Estava terminando seu turno e o amigo precisava substituí-lo. Catatau acordou, pegou o fuzil da mão do amigo, abriu a geladeira e virou o resto de uma garrafa de vodca num gole só. Despediu-se e seguiu para a laje donde vigiava a boca de fumo alguns metros à frente.

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