Das ervas que restam

É. Lá se vai o terceiro copo de chá.

Dizem que é o tipo de bebida que nos ajuda a refletir e… quer saber? Não importa a quantidade de xícaras. Acho que só o tempo realmente nos ajuda a pensar, pôr as coisas no lugar, recuperar o fôlego e voltar aos eixos. Eu vivi uma maravilhosa e confusa aventura que, em teoria, acabou. Fato delicado e cheio de pontas soltas. O problema é que quando se relembra um fato por inúmeras e inúmeras vezes, os elementos principais se tornam meros detalhes e os meros detalhes passam a protagonizar a porra toda. A vida é vista por um novo ângulo, o passado é narrado sob uma nova perspectiva e as regras são ditadas pelas coisas das quais não fiz questão. Faz sentido, agora, o porquê de você só ter me procurado quando estava mal, quando não tinha ninguém para conversar. Faz sentido, agora, o porquê de você desaparecer quando está feliz, quando as coisas estão bem, quando tudo passa a dar certo. Eu acho que minha amizade foi convertida num escritório virtual de psicologia, tornando-me útil apenas para abraçar o seu lado mais obscuro. Quando esse lado hiberna, não tenho lugar na sua vida. E sou, então, educadamente deixado de lado.
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Desfecho

Escrevo essa carta por enigmas enquanto sobriamente minha alma grita por dentro não de dor, mas bebe em um tom de sarcasmo para o desabafo inevitável. Sei que futuramente tal texto dificilmente será entendido até por mim, mas mesmo assim é uma daquelas coisas dignas de se tomar nota.  Digo que o mesmo frio que gela a pele e causa tremores no corpo também queima a alma. Eis o constante motivo de meus pontuais silêncios enquanto meu espírito recita poesias e bebe vinho. Continue lendo “Desfecho”

Algum dia do calendário

Para ouvir – the owl – rainy sun

Para N.,

Os dias andam nublados. Há dias o sol não entra pela janela. 15:10 o ônibus sobe a ladeira. Chove. Em dias tristes. Pessoas tristes. Tudo anda tão triste. Ouvi no rádio ontem que duas pessoas foram encontradas mortas na calçada da rua que leva ao condomínio morada nobre. Morreram de frio. O que é nobreza pra você? A tempestade que cai é triste. A água que escorre pelas ruas é triste. Lá do outro lado a pessoa que ouve “Piano Bar” do Engenheiros do Hawaii é triste. Você ainda consegue dormir à noite? Faltou luz. Somos todos tristes. Há felicidade ainda aqui?

Escrevo estas linhas desconexas, pois nada aqui faz sentido. Uma carta-protesto, talvez, mas com que propósito? Contra quem? Eu mesmo e minha hipocrisia?! Há algum propósito nessas coisas que fazemos? Uma criança sorriu pra mim ontem na rua. Um pássaro pousou na janela da cozinha enquanto eu lavava a louça. Ainda chove. Eu não lembro que dia é hoje. Fiz bolo de laranja. Ando cansada. Já reparou em como a cidade é cinza?

L.

Naquele quarto escuro

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Eram quase 2h da manhã. Ficara algumas vezes acordado até esse horário assistindo vídeos no YouTube, acessando as redes sociais… Mas nesse dia foi diferente. Não queria usar o celular, almejava apenas dormir. “Será que é querer demais? Acordar às 5h da manhã não é algo prazeroso” – pensou.

O sono não estava chegando. Também não sabia a que horas viria. Quando fechava os olhos, um turbilhão de pensamentos o inundava, tirando-lhe o sossego e o fazendo rolar na cama. E, já que o sono não dera sinal de alerta, ele desejava uma coisa. Não se tratava de nada simplório, mas de algo MUITO extraordinário. Alguns diriam: “ele está ficando louco”. Isso o fez recordar de uma cena do filme ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS:

“[…] – será que estou ficando louco? – disse o chapeleiro.

– Sim, você está completamente louco. Mas vou lhe dizer uma coisa: as melhores pessoas são assim – falou Alice. Lembrar-se desse diálogo o fez sorrir brevemente.

Naquele quarto escuro, sozinho em plena madrugada, o algo extraordinário ao qual gostaria que acontecesse era que o Criador se revelasse a ele. Sim, tipo um clarão aparecesse do nada e iluminasse todo o seu quarto, ou melhor, toda a sua alma. Ouvira algumas vezes relatos de pessoas que vivenciaram experiências com o Altíssimo, e mesmo se considerando uma criatura totalmente desprezível, adoraria o fato de Deus falar com ele. Teria tantas coisas pra perguntar, falar sobre a vida, sobre tudo o que lhe atormenta… A sensação de não encontrar respostas imediatas o angustiava.

Ele se encontrava cansado, é verdade! Não o seu físico, mas a sua alma. Porém, ainda que para uma grande maioria Deus se revelar para alguém fosse algo impossível de acontecer – talvez uma coisa fantasiosa demais -, ele ainda queria acreditar nessa possibilidade. E tinha certa certeza que esse acontecimento mudaria a sua vida – e para sempre.

Ops! Ele percebeu que o sono anunciou a sua vinda – tardia, é claro. “É o momento de fechar os olhos e permitir que ele me ‘consuma'”. Nem que fosse por um pouco de tempo. Afinal, 5h da manhã estava logo ali…

A primeira carta

Alda,

Não sabia como iniciar, o tempo passou e eu acho que perdi a prática de como se iniciam as conversas   – até mesmo as escritas. Tenho sentido a sua falta todo esse tempo, mas havia em mim um certo receio de me comunicar por esse meio – “um pouco antiquado” – você diria. Pessoalmente eu riria disso mais uma vez, mas agora distante, e com o sacrifício que me é pegar uma caneta e escrever-te, me sentiria envergonhada com tal resposta, e provavelmente não mais escreveria.

Aqui continuo sem sinal, já desisti de conseguir internet, e a tv na sala, não mudou muito, está lá apenas para que eu pareça menos selvagem. Aos domingos vou a cidade e compro pão, pudim e um jornal que às vezes me disponho a ler, mas por fim desisto. Estou gostando de me esconder aqui, temo não querer mais sair. Posso plantar o meu próprio alimento e me isolar por completo aqui dentro, não se preocupe, não farei isso, o meu temor é exatamente o contrário, o de quando por fim eu terminar a montagem do herbário, e assim ter que arrumar as malas, coloca-las no carro e partir.

Tenho uma novidade: a senhora que mora “aqui perto” deu-me um pezinho de funcho (é erva-doce, digamos) e mais dois gatos, sobre eles não irei falar muito, não quero estressa-la. Mas quanto a planta sigo-a admirando, prometo dar-lhe mais notícias dela. A “folha seca” que estou te enviando, achei por aqui, não sei de que árvore vem, nem descobri, mas achei bonita e acho que irá gostar. É só.

Com amor,

Eleonor

ruído

no cair da tarde me lembro de você. agora tudo está mais calmo. a luz atravessa a janela da porta da sala, uma luz branda que faz tudo ficar mais belo. a trilha sonora tem barulho de chuva ao fundo. imagino-me vivendo em alguma vila pesqueira. navegando em uma canoa. pescando e acendendo as lamparinas pela noite. fazendo bolo na folha de bananeira – pé de moleque daquele que a minha avó fazia. imagino nós dois conversando ao lado de uma fogueira; tomando café e contando coisas de quando éramos crianças. uma vida tranquila, não é? gosto de imaginar poder ter algum dia uma vida tranquila, mas o ser humano tem o dom de sempre estragar tudo.

[agora eu acordei. viver numa cabana em uma vila pequena isso não existe, não é? vidas tanquilas não agradam a ninguém e também não existem, existem? ignora. ando querendo viver de clichês ultimamente. o barulho de chuva ao fundo não era chuva: era ruído.]

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