o olhar passeia

às vezes
não sei
sentir

o olhar passeia
devagar
percorre a cidade
inteira
pelos becos, vielas
praças, lojas
casas, igrejas
rodovias
o olhar passeia

mãos estendidas
pelas calçadas
corpos caídos
pelos becos
pés descalços
pelas avenidas

você vê?

meu olhar passeia
pela cidade
corpos frios
percorrem a cidade
o sol tão forte
mas não aquece
os corpos frios
que passeiam
de olhos abertos
mas não enxergam

Amaranto

Olhava pela janela do metrô aquele cenário tão antagônico ao dos filmes antigos:

Na paleta de cores, azul desbotado e cinza frio. Arvorezinhas perdidas em meio ao solo de concreto, respirando com dificuldade o ar pesado que entra pelas narinas mais sugando do que dando vida. Casinhas perdidas em lugares onde não deveriam está, recheadas de crianças com as pernas tão acinzentadas quanto os muros e as britas.

Tudo era daquela cor que não tinha cor: Cinza.

Ferrugem dos trilhos para combinar: Vermelho.

No peito, guardava muita coisa que não deveria guardar: Lembranças cinzentas que lhe eram como fumaça que invade os pulmões e polui aquela cidade que existe dentro da gente, sentimentos avermelhados que chocam-se contra o sol e fazem arder os olhos, tons vulcânicos, e tão quentes quanto, que descem pela garganta rasgando e queimando.

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O caos do estúpido

Pela janela avisto uma só estrela. O céu está pálido, pensativo. Nada de concreto, as nuvens cobertas pelo breu a qualquer momento podem se desmanchar. Depois de duas taças de vinho começo a divagar. “Tolice criar edificações” – penso. Arquiteto as minhas ideias sem planejamento, assim como criei expectativas sobre fumaça de cigarros, não meus, eu não fumo. Nem bebo. Só hoje estou tomando vinho porque perdi o meu emprego e fui gastar o pouco de dinheiro que me resta. Irônico.

Na verdade, não é a primeira vez que bebo, confesso, e os preços dos vinhos que compro crescem na medida das tentativas de que um mais caro tenha um gosto melhor. Outra tolice. Não consigo gostar. Mas finjo que gosto, já sou chata demais para não gostar de vinho.

O certo é que todos me parecem iguais: têm gosto de decepção que para na garganta e impede os movimentos peristálticos, gosto de lembrança ruim que impede a diástole, gosto de coisas mal resolvidas. De fracasso. É isso. FRA-CAS-SO.

Como o fracasso da última construção, é que de sentimentos não sou boa engenheira, às vezes derrubo edifícios, às vezes eles se desmoronam sobre mim. Dito e feito: Demoliu-se, e eu fiquei sob. A queda foi feia, e eu me machuquei, mas não se preocupe, estou bem. Olha eu aqui sorrindo boba sob o efeito do álcool. Brincadeira, não estou sorrindo.

Ouvi os estrondos que alertaram que o prédio iria se derrubar, mas fiquei. É que sou viciada em sensações e queria sentir, então tudo que fiz foi ficar parada olhando para cima pensando “Vai doer pra caramba”. E doeu, mas está passando. Feridas não saram do dia para noite, nem se podem cura-las com beijinhos como a minha mãe fazia comigo na minha infância.

Eu sei que às vezes tem que se permitir sentir. Deixar que a última lágrima se desprenda e siga o seu rumo. Permitir a última batida fraca e sonolenta do coração até que ele se recupere. Paciência até que os ouvidos se acostumem novamente a ouvirem as antigas músicas, e os olhos a verem séries que não sejam “Friends” e “Um maluco no pedaço”.

Às vezes vale deixar, clichê, que o tempo faça os nossos curativos, para que tudo que dói agora seja trivial, o nosso mundo reorganize a sua órbita, e deixemo-nos de girar e encontremos a direção certa.

Assim, começaremos um novo capítulo.

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