Ninguém é de ferro

Deixei meu fusca azul no estacionamento do edifício office. Abri a porta e o guarda-chuva logo após. Céus! Como chovia naquela manhã. O mundo estava acabando. Mal dei três passos e já havia encharcado minha bota nova. Não era legítima, era chinesa. Porém comprei pela internet e demorou três meses pra chegar, não estava a fim de perde-la na primeira lama da vida. Desviei de três ou quatro poças d’água até alcançar o saguão. Fechei o guarda-chuva, sacudi a calça, cumprimentei o vigia e fui até o elevador. Apertei o número do meu andar, “18“, dei três pancadas de leve no botão. Era um procedimento padrão, na época achava que quanto mais se aperta um botão de elevador, mais rápido ele vem.

Quando cheguei ao décimo oitavo, puxei as chaves do bolso e abri a porta do escritório. Olhei tudo e não encontrei nenhuma goteira. Aquilo já havia sido uma vitória. Era uma quarta-feira qualquer, de uma semana com poucos clientes. É uma merda ser advogado nesta cidade. Parece que as coisas só funcionam no Brasil para quem é concursado. Minha recepção estava “OK“. Completamente limpa, com as revistas no lugar, com o radinho ligado, com o bebedouro cheio. Espirrei um pouco de aromatizante para criar um clima. “Nada molhado e tudo limpo, duas preocupações a menos“, pensei. Meu gabinete tinha papéis jogados para todos os lados da mesa. Arrumei tudo a moda cacete, estava com uma preguiça sem fim. Sentei na cadeira, ajustei-a. Minha janela ficava nos fundos, atrás da mesa. Fui até ela e abri as persianas. A chuva não perdoava lá fora, olhei ao redor: o trânsito pegando fogo, a estação de trem lotada, o metrô estalava nos trilhos quase submersos pela enxurrada. Ao lado da janela, meu calendário de parede segurava o cordão com meu crucifixo. Senti vontade de fazer uma oração. Em dias assim bate um desejo de de orar, de tocar o outro mundo. Só em dias assim. Quer dizer, quem consegue ser fiel durante o terrível calorão do verão? O sobrenatural já arde na pele.

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Semanalmente

Novamente ele perde o ônibus. Outro deslize de tipo e logo ficará desempregado. Ele não se importa, embora devesse se importar. Ele não está nem ai, embora precise estar. Há anos se sente perdido, ressentido, deslocado, atrapalhado. Pela quinta vez, arrisca tirar a pele do machucado, porém a ferida volta a sangrar, ela sempre volta a sangrar. Não secou, não está pronta ainda. Ele pira! Xinga! E saliva a marca feia no braço. Insiste na cura que não chega. Berra contra o tempo que não passa.

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Procuro-me

Eu sinto a minha falta. Sinto falta daquela que acredito ser eu e tento encontra-la desesperadamente.

Já não sei quem sou. Não sei quem é aquela que me olha assustada no reflexo do espelho aflita para encontrar algo, tão pouco conheço aquela que sorri despreocupada de coisas sem graça.

Perdi-me em algum lugar. Essa que sou hoje tenho certeza que inventei.

Não sei do que gosto mais, e nem o porquê que venho sendo quem sou. Entreguei-me as correntezas da vida e elas traçaram o meu rumo baseadas no improviso.

Já não sei o que quero. Já não para onde vou. Não sei quem é essa que eu chamo de “eu”, e que eles dizem “você” porque quando a vejo, não me vejo, e quando a sinto eu tenho medo.

Se encaro-me voluntariamente ou acidentalmente, logo quero fugir de mim. Logo busco alternativas para não olhar-me. E não me olho, ignoro-me totalmente. Em uma atitude radical finjo que não me vejo.

Tenho falado a palavra “excelente” e “loucura” excessivamente. Dormido pouco, comido menos. Essa não sou eu.

Certa vez pintei secretamente um auto retrato de quem desconfio ser-me, ainda que seja apenas um esboço, guardei-o como se guarda o mais valioso tesouro. Talvez eu deva enfim torna-lo público para que os outros me ajudem a encontrar-me. Porém não farei isso. Se aquela for realmente quem sou, ela é só minha, e mesmo diante da incerteza, chamei-a Eu e vou guardá-la só para mim. E guardei-a em uma caixinha, não sei exatamente onde, mas foi por ali, dentro de mim.

Já faz um tempo que não abro a caixinha e a olho. Espero que Eu ainda esteja lá.

Quietude

Acordo às 8h em ponto. Visto uma roupa, faço um café e em seguida abro o portão e caminho até o supermercado. As ruas estão desertas. Amo os domingos por causa disso – de manhã o silêncio faz morada aqui no bairro. Às vezes, desejo morar no silêncio dos domingos.

Caminho a passos lentos, observo cada detalhe da rua e percebo que caminho por aqui todos os dias, mas nunca havia notado que o som do trompete – que sempre ouvia ao voltar pra casa pela tarde – vem daquela casa amarela da esquina. Enquanto caminho lentamente, alguém passeia com o seu cachorro, um senhor sobe em direção contrária e eu atravesso a rua em direção a outra calçada.

Logo chego ao supermercado, compro algumas coisas e volto andando um pouco mais rápido, pois ainda tenho que fazer faxina em casa. Ao voltar, presto atenção e caminho pela calçada do lado direito da rua – lembro que do outro lado o cachorro da segunda casa ouve os passos de quem passa pela calçada e começa latir; dessa vez ele não teve que gastar seus latidos, e eu não tive que me assustar.

Sigo pela calçada e o silêncio já não é mais tão presente. Alguém ouve música em um volume altíssimo. O senhor da casa da outra esquina lava o carro enquanto o rádio está ligado na missa de domingo. Alguns carros passam para um lado e para o outro. Minha respiração está mais ofegante – o cansaço me toma. E assim o silêncio de domingo de manhã desaparece assim como a fumaça que sobe do outro lado da rua.

Recado na porta da geladeira

O mundo lá fora gira agitado, meio tombado de lado, sei lá!

Há coisas novas acontecendo por todo canto, e as cortinas das casas estão se fechando mais cedo por causa do frio. Aqui comigo os planos ainda são os mesmos: ando fazendo adaptações para que eu possa caber em mim. Não leio os jornais e falo sobre assuntos que eu não sei baseada em livros antigos que li e que mal sei pronunciar o nome do autor. Depois, sozinha, rio da minha ignorância.

Ando devagar pelas ruas e converso com os meus gatos. Sempre esqueço de molhar as plantas, mas nunca de cumprimenta-las. Não me sinto mal, contudo não estou bem o suficiente.

Nada em especial acontece. É sexta-feira, amor!

Procurei por mim hoje como nos dias anteriores – É realmente difícil encontrar aquilo que não se conhece – sai cedo e resolvi as minhas coisas, o que não consegui hoje ficou para amanhã.

Amanhã é o meu aniversário. Há uma calmaria boa aqui dentro. Eu me sinto bem por não ler os noticiários, de todas as formas comprei uma quantidade a mais de biscoitos amanteigados e ração para os gatos.

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